é assim que tem que ser

“Ir vivendo a vida? Não, ir amando a vida. Quando eles vierem te apedrejar, pelo menos você não estará dentro de uma casa de vidro, mas dentro da transparência de sua própria carne.”

As origens da Geração Beat, Jack Kerouac.
Playboy, 1959.

(dois fragmentos, uma vida)

Bem, sou um homem com muitos problemas e suponho que em sua maioria sejam criados por mim mesmo. Estou falando de problemas com mulheres, jogo, hostilidade contra grupos de pessoas, e, quanto maior o grupo, maior a hostilidade. Dizem que sou negativo, sombrio e taciturno.

Sempre me lembro da mulher que um dia me gritou assim:

— Você é tão negativo, porra! A vida pode ser bonita!

dr. nazi, charles bukowski

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henry lee, nick cave & pj harvey

ubatuba

eu não queria recolher coisas nem encarar morte e muito menos passar o final de semana sozinha com lembranças doloridas. chamei hank pra me acompanhar, mas a tristeza continuou a mesma. acontece.

mudando

tinha escrito um texto pra acompanhar, mas a letra já diz muito do que está se passando na minha vida. não vou entrar em pormenores aqui.

either way

o rádio relógio me acordou a tempo de ouvir “nove graus em são paulo, tirem suas blusas do armário sem medo!”. seduzida pelo barulho da chuva lá fora, levantei o braço direito sem me descobrir e abri um vão na janela. “dá pra ver o bairro inteiro dormindo”, pensei. então foi a vez do braço esquerdo buscar um cigarro na cabeceira (dor de garganta se cura com dor de garganta), desligar o despertador e voltar à fumaça. fumaça, era o que estava faltando na manhã fria. fumaça e teu braço em torno de mim naquela cama pela metade, tão grande e tão vazia. ainda deu tempo de sentir teu cheiro no travesseiro antes de reparar que havia gasto dez minutos nesse ritual de saudades. “vão me custar no mínimo trinta minutos a mais no trânsito”, previ. então levantei, me enfiei embaixo do chuveiro e mandei embora do meu corpo toda a vontade de desistir. na bagunça do quarto, enquanto buscava o que vestir — de preferência algo que me deixasse invisível, ao menos por hoje — tropecei na vontade de te beijar mais uma vez. beber, preciso beber. assim, a essa hora, eu só quero fugir.

companheiros da manhã: uma garrafa de café amargo, wilco nos fones de ouvido e alguma esperança de ver tudo acabar mais uma vez. afinal, se passou um ano e eu nem me dei conta, é porque o tempo cura mesmo qualquer ferida. maybe I won’t be so afraid, I will understand everything has its plan… either way.

rapidinha

percorrendo algumas anotações antigas (o caos) para preencher uma pauta (reciclagem de informações, acho sustentável etc), encontrei umas observações minhas sobre mate-me por favor e punk:attitude. alguma coisa sobre o fato de eu ter essa postura constante de overanalyze everything que todo mundo critica (com razão), uma citação ilegível de Bob Gruen e uma conclusão justa. o negócio não é se sentar no seu lugar e compreender tudo o que acontece. o negócio é ter uma experiência caótica. faz anos, mas acho que ainda preciso absorver.

a julgar pelos últimos meses, tenho feito meu melhor.

entrelinhas

se essa história se tornou romance, foi muito mais pelo não dito. o dito se esvaiu, destoou, não fez sentido dentro nem fora de qualquer contexto. o não dito ficou. cada silêncio estratégico, olhar malicioso ou beijo desconfortável registrara uma linha. cada segundo entre a fala dele e a minha requeria um esforço inigualável para que não revelássemos nossas intenções. está tudo no não dito, toda nossa história de amor.

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achei perdido por aqui mais um pedaço da história. pertinente compartilhar.