lua adversa

e roda a melancolia / seu interminável fuso! / não me encontro com ninguém / (tenho fases, como a lua…) / no dia de alguém ser meu / não é dia de eu ser sua… / e, quando chega esse dia, / o outro desapareceu… (Lua Adversa, Cecília Meireles)

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(em fevereiro)

— pensava cá com meus botõezinhos.
— hm.
— ontem ela me implorou pra eu ir a uma festa que vai ter sábado. eu disse que não iria. um pouco mais tarde, meio que sem querer, ela pensou alto quando um dos amigos disse que ia levar peguete: “só eu que não vou ter ninguém pra pegar nessa festa”. eu gosto muito dela, mas não quero que seja assim. olha, as pessoas são acomodadas e inseguras demais.
— são.
— VÁ LÁ NÉ. é uma festa. tá cheia de gente, ela é linda, gostosa e tal. aí fica no meu pé porque não se enxerga assim e eu dei uma chance pra ela. acho que naquela cabecinha insegura, eu sou a única pessoa no mundo que ficaria com ela. ou, sei lá, ela tem preguiça até de tentar com outras pessoas, afinal, eu já estou ali mesmo…
it’s not about what you can, it’s about what you want, né?
— tem isso também. as pessoas se fecham pras possibilidades quando querem algo específico. eu sei, fiz isso por anos e anos.
— pois é.

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(acerto de contas)

— eu já tinha me convencido de que você não queria nada muito sério, nunca tinha certeza de quando você estava afim de ficar comigo ou não, a gente nunca nem quis tentar sair. e naquele dia em que eu tinha oferecido pra você dormir em casa, você me disse que “ah não. eu, você e álcool, dá merda”.
— eu não queria ficar prolongando sexo, era uma coisa proporcional, quanto mais perto eu ficava de ti, mais eu queria ficar. mais, mais, mais. e eu não podia chegar e dizer. fazer a mala, sabe? não podia pegar o violão e te declarar amor pra sempre com teu desprezo dia sim dia não. não te queria comigo por pena.

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(freedom)

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(vira o jogo)

guria, um disse eu disse que te daria o que me pedisses. não foi suficiente. todo o tempo de que dispus ao teu lado, todas as vezes que contei, ainda sem jeito, que gostava de ti, todas as noites que passamos invertendo posições num colchão a evitar incomodar a paz alheia ao mesmo tempo em que explorávamos cada ponto de prazer nosso, nada disso te foi suficiente. e eu precisei descobrir da pior forma, que é vendo tua partida.

~~
(agora)

tenho essa coisa com cheiros. como as músicas, eles são capazes de me fazer viajar no tempo. e hoje foi o teu cheiro que senti logo cedo. depois de teres partido sem me deixar chão algum para recomeçar, essa era a primeira vez em que eu me sufocava vivendo de novo aquela manhã. e eu te via ali, sentada ao meu lado, trocando confidências. doía. então aumentava o volume dos fones de ouvido, mas não conseguia fugir. tentei mudar a posição, mas o cheiro contaminou o ônibus inteiro — e eu já não consegui mais não te desejar de novo, como se nada tivesse acontecido, como se estivéssemos estacionadas no nosso adorado e feliz dezembro. o teu cheiro, que eu tanto amei, hoje me causou repulsa maior que qualquer outra coisa — só porque me faz querer perdoar algo que não tem mais volta.

~~
(fases)

ontem pela manhã, a caminho do trabalho, ocorreu-me de assalto um poema de Cecília Meireles. pensava na minha solidão, na minha sobrecarga, em tudo que tenho passado, e os versos repetiam-se em minha mente enquanto esperava o sinal ficar verde. “tenho fases, como a lua / fases de andar escondida, / fases de vir para a rua…”. engraçado de repente algo que decorei há tantos anos fazer sentido assim, de novo. embora não leia Cecília faz tanto tempo, exatamente por falta de identificação, foi como se tivéssemos conversado horas e horas. como se as palavras dela fossem minhas.

tenho fases, como a lua.

6 comentários em “lua adversa”

  1. Lindo o texto… já passei por isso…acho q ainda passo…

    sinto q o desfecho vai ser foda… tenso =/

    Ariane: O desfecho ESTÁ foda, Kevin, é que eu não pude escrever nem metade de tudo o que está acontecendo ou já aconteceu. Lição para a eternidade: jamais fornicarás com alguém que vês todos os dias. No meu caso, acho que é jamais fornicarás e ponto, viu? hahahaha.

    O bom é que tudo passa. =)

  2. nossa, eu simplesmente entendo isso, sabe… well, ando passando por algo assim, dá medo, dói um tanto…
    queria saber como acabou ou está ocorrendo o final (ou seria continuidade?) dessa história de paixão (ou amor?) que tu descreveu com tanta sensibilidade e sentimentos…

    Ariane: Ah, Min, eu também quero saber como vai acabar. O que está ocorrendo AGORA fica bem difícil de descrever , já tentei milhões de vezes. O que eu posso dizer é que é bem tenso. Qualquer hora aparece aqui pra vocês verem. ;*

  3. Poisé. Somos uma comunidade, minha gente.
    Como você disse Ariane, é bom que passa. Mas, é esse intervalozinho que machuca, viu?

    Fiquemos bem.
    Beijo.

    Ariane: Olha, qualquer hora eu crio um fórum pro Lovemaltine em que só entra “heartsick”. Vai ser um sucesso a terapia em grupo.

    Enquanto isso, a gente curte essa dor do intervalo.
    E ah, como eu sei que machuca…

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