sem crédito

Ontem, no elevador da empresa, lá pelas 13h, o garçom puxou assunto comigo.

— Já vai, Ariane? Vida mansa…
— Magina. Vou trabalhar de casa.
— Vai, é? Fazer o que, twittar o jogo? (risinho malvado)

Olha como eu tenho credibilidade no prédio.

letter to C

Dearest Cecilia,

The story can resume. The one I had been planning on that evening walk.
I can become again the man who once crossed the surrey park at dusk, in my best suit, swaggering on the promise of life.
The man who, with the clarity of passion, made love to you in the library.

The story can resume. I will return.

Find you, love you, marry you and live without shame.

acontece

Mês passado (retrasado?) cheguei ao limite. Estava cansada de trabalhar, correr pra faculdade, engolir qualquer coisa, cair na cama e levantar cinco horas depois pra começar tudo de novo. Então pedi pra mudar o horário no trabalho, o que me daria algumas horinhas livres à tarde. Na primeira semana tudo correu bem: saía cedo da agência, lia, escutava música, tomava um café prestando atenção em nada, comprei até outro violão.

No entanto, de repente começou a desandar. Virou um placebo sair cedo, porque batia meu horário e eu tinha que correr da agência pra faculdade. Cuidar do blog, cuidar dos trabalhos infinitos do curso, cuidar da turbulência fodida em que entrou minha vida depois de uma traição. (Dica: deixe sempre teu ego treinado pra traições cabeludas. Poupa um esforço…).

Ariane, estou enviando os cds. Ariane já publicou a resenha? Ariane, faz o sorteio. Ariane, você arruma uma fonte? Ariane, precisamos de alguem pra apresentar o telejornal. E aí, já sorteou os CDs? Tá demorando. Por que o meu blog não tá na sua sidebar? Por que você tá mal? Olha, você é a editora só porque recebe os emails. Olha, ninguém manda, ninguém faz mais. AI, SOCORRO, FIZ MERDA, ME AJUDA? Ah, mas eu não tenho culpa que só você sabe. Deixa essa parte com a Ariane. Tudo pra ainda ouvir desaforos de quem divide as tarefas comigo, como se minha opinião e meu esforço fossem irrelevantes pra um projeto que quem botou no mundo fui eu. Por que não vão chupar um canavial de rolas?

O fim do semestre aumentou o já enorme volume de trabalhos a serem feitos, os prazos diminuíram, a  tristeza atrapalhando a concentração… Job novo (que era pra ser a maior alegria do ano) chega bem na semana de provas. Eu sempre com um TÔ NA MERDA MAS TÁ TUDO ÓTIMO tatuado na cara, porque  sou gente finíssima. Até quando sinto vontade de voar no pescoço de gente filha da puta eu faço isso sorrindo. Pois bem: ESTAFA.

Chegamos ao dia de hoje.

Preciso (MUITO) sair pra dar uma volta na rua por pelo menos uma hora sem pensar no que há pra ser feito, resolvido, no que pode dar errado se eu falhar por um segundo. Semana que vem precisa chegar logo. Eu preciso estar viva até lá.

É muita responsabilidade, muita. Tenho só 20 anos e já quero férias de tudo. Deitar em posição fetal embaixo de edredom, esvaziar as lágrimas. Ouvir música bem alto e pular na cama. Fazer guerra com meu travesseiro e perder. Quero terminar meu Ian McEwan e o último Bukowski que me falta. Fazer minhas tatuagens, viajar sozinha por um final de semana e passar o dia todo olhando pro mar.  Quero frio e fondue e boas leituras. Se bobear, até sexo eu quero (mesmo sem saber muito como ou o que fazer). Porque eu quero novidade. Sair da mesmice. Ousar e… Quantos anos eu tenho mesmo, 12?

Coragem.

Quero não olhar pra mim mesma e pensar “Porra, além de tudo eu virei Poliana”.

Mas não vai ser agora. Agora eu tô Poliana até demais.

lama

Às vezes me batia (ainda bate) a vontade estranha de vir aqui e contar tudo, tudo o que aconteceu nos últimos meses, todos os diálogos, os fatos, o que se passou pela minha cabeça. Não para me expor, não para me vitimizar, apenas porque eu sabia (sempre soube) que provavelmente apareceria alguém nos comentários ou no meu email dizendo “poxa, Ari, já passei por isso” e nós conversaríamos por algum tempo (dez minutos, quem sabe?) e eu me sentiria menos pior por não ser a única. Porque hoje eu me sinto a pessoa mais idiota do mundo e é como se eu tivesse essa propensão a ser trocada, abandonada, deixada de lado, como se tivesse algo de repulsivo que ninguém mais tem. E porque sim, foi assim que a maioria das amizades que construí por conta desse blog começaram: com identificação. Hoje ele me pareceu mais importante do que qualquer outra coisa no mundo, vejam. Como meus diarinhos quando era criança, como meus moleskines há dois ou três anos. Porque (de novo) não tenho conseguido falar com ninguém e nem mesmo esperar nada das pessoas senão os próximos abandonos, e aqui posso dizer tudo sem necessariamente esperar que alguém, mais uma vez, vá embora de mim deixando apenas dor.

lua adversa

e roda a melancolia / seu interminável fuso! / não me encontro com ninguém / (tenho fases, como a lua…) / no dia de alguém ser meu / não é dia de eu ser sua… / e, quando chega esse dia, / o outro desapareceu… (Lua Adversa, Cecília Meireles)

~~

(em fevereiro)

— pensava cá com meus botõezinhos.
— hm.
— ontem ela me implorou pra eu ir a uma festa que vai ter sábado. eu disse que não iria. um pouco mais tarde, meio que sem querer, ela pensou alto quando um dos amigos disse que ia levar peguete: “só eu que não vou ter ninguém pra pegar nessa festa”. eu gosto muito dela, mas não quero que seja assim. olha, as pessoas são acomodadas e inseguras demais.
— são.
— VÁ LÁ NÉ. é uma festa. tá cheia de gente, ela é linda, gostosa e tal. aí fica no meu pé porque não se enxerga assim e eu dei uma chance pra ela. acho que naquela cabecinha insegura, eu sou a única pessoa no mundo que ficaria com ela. ou, sei lá, ela tem preguiça até de tentar com outras pessoas, afinal, eu já estou ali mesmo…
it’s not about what you can, it’s about what you want, né?
— tem isso também. as pessoas se fecham pras possibilidades quando querem algo específico. eu sei, fiz isso por anos e anos.
— pois é.

~~
(acerto de contas)

— eu já tinha me convencido de que você não queria nada muito sério, nunca tinha certeza de quando você estava afim de ficar comigo ou não, a gente nunca nem quis tentar sair. e naquele dia em que eu tinha oferecido pra você dormir em casa, você me disse que “ah não. eu, você e álcool, dá merda”.
— eu não queria ficar prolongando sexo, era uma coisa proporcional, quanto mais perto eu ficava de ti, mais eu queria ficar. mais, mais, mais. e eu não podia chegar e dizer. fazer a mala, sabe? não podia pegar o violão e te declarar amor pra sempre com teu desprezo dia sim dia não. não te queria comigo por pena.

~~

(freedom)

~~
(vira o jogo)

guria, um disse eu disse que te daria o que me pedisses. não foi suficiente. todo o tempo de que dispus ao teu lado, todas as vezes que contei, ainda sem jeito, que gostava de ti, todas as noites que passamos invertendo posições num colchão a evitar incomodar a paz alheia ao mesmo tempo em que explorávamos cada ponto de prazer nosso, nada disso te foi suficiente. e eu precisei descobrir da pior forma, que é vendo tua partida.

~~
(agora)

tenho essa coisa com cheiros. como as músicas, eles são capazes de me fazer viajar no tempo. e hoje foi o teu cheiro que senti logo cedo. depois de teres partido sem me deixar chão algum para recomeçar, essa era a primeira vez em que eu me sufocava vivendo de novo aquela manhã. e eu te via ali, sentada ao meu lado, trocando confidências. doía. então aumentava o volume dos fones de ouvido, mas não conseguia fugir. tentei mudar a posição, mas o cheiro contaminou o ônibus inteiro — e eu já não consegui mais não te desejar de novo, como se nada tivesse acontecido, como se estivéssemos estacionadas no nosso adorado e feliz dezembro. o teu cheiro, que eu tanto amei, hoje me causou repulsa maior que qualquer outra coisa — só porque me faz querer perdoar algo que não tem mais volta.

~~
(fases)

ontem pela manhã, a caminho do trabalho, ocorreu-me de assalto um poema de Cecília Meireles. pensava na minha solidão, na minha sobrecarga, em tudo que tenho passado, e os versos repetiam-se em minha mente enquanto esperava o sinal ficar verde. “tenho fases, como a lua / fases de andar escondida, / fases de vir para a rua…”. engraçado de repente algo que decorei há tantos anos fazer sentido assim, de novo. embora não leia Cecília faz tanto tempo, exatamente por falta de identificação, foi como se tivéssemos conversado horas e horas. como se as palavras dela fossem minhas.

tenho fases, como a lua.