freedom

já estava tudo acabado faz tempo. faltava mesmo era aparar as arestas, acabar com os olhares de lado, exterminar as expectativas restantes. em geral, “precisamos conversar” nunca me trouxe nenhum tipo de novidade agradável, de modo que não fiquei ansiosa e também não me ative a meios de agilizar o acontecimento. depois de cinco dias, no entanto, escondida num cantinho escuro bem debaixo de um telefone público, “onde ninguém pode interromper”, aconteceu o encontro sem graça de olhares e resoluções.

– então, diga.
– é que é pouca coisa, o que eu tenho pra dizer.
– hm, fale logo.
– a verdade é que eu gosto de você, mas gosto dela também.

(dava pra me ouvir desmoronando a quadras dali. mas eu continuei calada, como se não estivesse acontecendo nada)

– ah. sim. sem problemas.
– gosto das duas. ah, se eu pudesse, não sei…
– …ficar com as duas?
– é..
– não. não é uma opção.
– nem de vez em quando?
– não.
– então eu acho que…
– quer saber? ache nada não. esquece isso. esquece tudo. não ligo.
(corta para o silêncio constrangedor.)
– estou com um sono…
– verdade. eu também. está frio, né?
– pois é. – chamando alguém que passa – EI VOCÊ, VEM AQUI.

a essa altura, toda a dor de aceitar que até hoje não fui boa o suficiente para ninguém — que talvez nunca seja — já tinha me ajudado a atingir o limite do sofrimento, mas também da indiferença. eu simplesmente não sabia o que dizer. não conseguia pensar em nada. então esperei que os outros viessem e fossem. fiquei ali, sozinha, imóvel, enquanto todos saíam felizes para comer e comemorar o final de semana. éramos agora eu e aretha franklin nos meus ouvidos calejados, até que alguém viesse me avisar que era hora de ir pra casa, que tudo ia ficar bem, que nada havia acontecido. e não aconteceu mesmo nada. eu hoje sou bem um fantasma. pelo menos sei que sozinha não serei (de novo, e de novo, e de novo) substituída por ninguém. liberdade, finalmente.

4 comentários em “freedom”

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