( fluxo )

é feito punição. vai fazendo constantemente, repetindo a dose com uma frequência cada vez maior, correndo pra lá e pra cá enquanto o dia se encarrega de fazer com que tudo realmente atinja e machuque por horas e horas. sofrimento incessante. voluntariamente. masoquista.

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um dia fez uma carta, endereçou-a, selou e jogou fora. é sempre assim. mais fácil quando a sensação é de dever cumprido. seu dever era ir até o fim. não foi, mas ninguém precisava saber. todos iriam achar pra sempre que ela era a corajosa remetente de várias e várias cartas de amor que qualquer um gostaria de ter escrito mas poucos ficariam felizes em receber.

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e ele, que desistiu dela achando que nunca conseguiria nada — talvez ela simplesmente não valesse o esforço, não é mesmo? — não sabia que, na próxima vez que AMEAÇASSE uma investida, teria em seus braços ela e o que mais lhe pedisse. agora não, tudo era diferente. depois de meses suportando a rejeição e sua própria insegurança, depois de tanto tempo tentando lutar contra si mesma, simplesmente desistiu. não cederia a ele, nem a mais ninguém. ou sim, quem sabe? mas hoje não queria pensar nisso.

por meses, seu grande e maior dilema foi como e o que dizer a ele. eram horas procurando as palavras certas para, quem sabe, iniciar um diálogo. hoje ela simplesmente não fala nada. não espera mais sinal nem mensagem algum vindo dele ou do universo. o universo não dá sinais, deus não vai com a sua cara, homem nenhum jamais vai amá-la.

são decisões pontuais que mudam a rota de seus dias.

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é seu eterno querer alguém e não querer ninguém, seu constante um é pouco dois é bom que nunca funciona. dominar sentimentos não existe. existe a possibilidade de autoilusão, mas isso a imbecil também não quer mais, sempre acaba mal.

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pensou num remédio que pudesse aplacar sua enxaqueca constante (talvez para curá-la da carência também, se fórmula houvesse). um remédio que fizesse com que todos os problemas de seu universozinho hermético e impressionista fossem pulverizados de uma vez só.

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o que podia ver era simples. jamais teve o coração de ninguém, sua sina era amar doentiamente um ou dois seres humanos, entrelaçar-se com mais meia dúzia, acreditar que seria feliz com dois ou três destes e, no fim, ver-se sozinha novamente, substituída pelas mulheres certas, aquelas que servem para andar de mãos dadas na rua e ir ao cinema, que sonham em casar e ter filhos. ela, seus gatos, seus livros, seus discos, como previa desde os cinco anos, quando escreveu seus primeiros versos.

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“algo me seduz / pois me apaixonei / não me deu bola / me decepcionei”. os primeiros versos de uma vida que seria completamente baseada na escrita. os versos aparentemente ingênuos que, 15 anos depois, resumiam toda sua existência, cercada de rimas pobres e desprezo total. ficava lendo livros, vendo filmes, acompanhando famosos. apenas uma forma de viver outras vidas, mehores que as dela — não de sofrer menos, apenas de ignorar o próprio sofrimento.

queria alguém que lhe amasse mas sabia que quando tivesse isso quereria outra coisa. a vida é assim. pelo menos a vida dela.

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tenho um reginaldo rossi em algum lugar dentro de mim, eu sei.

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