dias de Larry: acontecem

*

Larry: Is he a good fuck?
Anna: Don’t do this.
Larry: Just answer the question! Is he good?
Anna: Yes.
Larry: Better than me?
Anna: Different.
Larry: Better?
Anna: Gentler.
Larry: What does that mean?
Anna: You know what it means.
Larry: Tell me!
Anna: No.
Larry: I treat you like a whore?
Anna: Sometimes.
Larry: Why would that be?

*

Thank you for your honesty, now fuck off and die.

freedom

já estava tudo acabado faz tempo. faltava mesmo era aparar as arestas, acabar com os olhares de lado, exterminar as expectativas restantes. em geral, “precisamos conversar” nunca me trouxe nenhum tipo de novidade agradável, de modo que não fiquei ansiosa e também não me ative a meios de agilizar o acontecimento. depois de cinco dias, no entanto, escondida num cantinho escuro bem debaixo de um telefone público, “onde ninguém pode interromper”, aconteceu o encontro sem graça de olhares e resoluções.

– então, diga.
– é que é pouca coisa, o que eu tenho pra dizer.
– hm, fale logo.
– a verdade é que eu gosto de você, mas gosto dela também.

(dava pra me ouvir desmoronando a quadras dali. mas eu continuei calada, como se não estivesse acontecendo nada)

– ah. sim. sem problemas.
– gosto das duas. ah, se eu pudesse, não sei…
– …ficar com as duas?
– é..
– não. não é uma opção.
– nem de vez em quando?
– não.
– então eu acho que…
– quer saber? ache nada não. esquece isso. esquece tudo. não ligo.
(corta para o silêncio constrangedor.)
– estou com um sono…
– verdade. eu também. está frio, né?
– pois é. – chamando alguém que passa – EI VOCÊ, VEM AQUI.

a essa altura, toda a dor de aceitar que até hoje não fui boa o suficiente para ninguém — que talvez nunca seja — já tinha me ajudado a atingir o limite do sofrimento, mas também da indiferença. eu simplesmente não sabia o que dizer. não conseguia pensar em nada. então esperei que os outros viessem e fossem. fiquei ali, sozinha, imóvel, enquanto todos saíam felizes para comer e comemorar o final de semana. éramos agora eu e aretha franklin nos meus ouvidos calejados, até que alguém viesse me avisar que era hora de ir pra casa, que tudo ia ficar bem, que nada havia acontecido. e não aconteceu mesmo nada. eu hoje sou bem um fantasma. pelo menos sei que sozinha não serei (de novo, e de novo, e de novo) substituída por ninguém. liberdade, finalmente.

feeling good

engraçado isso de querer esquecer algo que me fez tão bem. achava interessantes tuas maneiras à rua ou ao telefone, ou somente comigo, ambos vestidos sempre com a carcaça séria, sempre na defensiva, o desejo editorial, os pequenos prazeres, os livros a ler e a escrever, todas as cartas não enviadas. e doía tanto saber sempre pelos teus olhares que fugias de mim, como que por repulsa. mas eu sempre insisti: corria a esticar a corda, problemática, a querer uma nova maneira de representar o mundo sem dores, prazeres contidos ou noites maldormidas, um mundo sem intimidações, só entre mim e ti.  sempre farta de tantas idealizações, eu que às vezes sofro por minha negatividade, não deveria tomar-te como verdadeiro, assim tão cheio de facilidades para construir e desconstruir contextos. eu sempre quis essa capacidade que tens de recortar e editar a vida como parece conveniente, todo esse universo ficcional que se mistura à nossa realidade.  e se só posso saber de algo por meio dos elementos que isso me oferece, a verdade é que eu sempre soube que interpretar ou argumentar jamais me levariam a ti. sempre esteve tudo ali, desde o início da humanidade, em quaisquer formas de representação e interpretação do mundo. talvez por isso tenha sido tão bom te deixar partir: assim me sinto livre. assim me sinto bem.

entendo

Daniel: So what’s the problem, Sammy? Is it just Mum or is it something else? Maybe… school – are you being bullied? Or is it something worse? Can you give me any clues at all?

Sam: You really want to know?

Daniel: I really want to know.

Sam: Even though you won’t be able to do anything to help?

Daniel: Even if that’s the case, yeah.

Sam: OK. The truth is actually… I’m in love.

Daniel: Sorry?

Sam: I know I should be thinking about Mum all the time, and I am. But the truth is I’m in love and I was before she died, and there’s nothing I can do about it.

Daniel: Aren’t you a bit young to be in love?

Sam: No.

Daniel: Oh, OK, right. Well, I’m a little relieved.

Sam: Why?

Daniel: Well, you know – I thought it might be something worse.

Sam: Worse than the total agony of being in love?

Daniel: Oh. No, you’re right. Yeah, total agony.

goodbye



I say
Goodbye to romance, yeah
Goodbye to friends, I see ya
Goodbye to all the past
I guess that we’ll meet
We’ll meet in the end

starbucks

fazia tempo eu simplesmente não entrava sozinha num lugar, deitava no sofá e, com coltrane nos ouvidos e café nas mãos, pensava em absolutamente nada.

como sou boba. estaria bem melhor se não tivesse interrompido esse ritual. de qualquer forma, tão bom revisitar a ariane que quer viver.

life’s just too fucking boring not to try. fico vendo lew ashby me dizer isso o tempo todo.

( fluxo )

é feito punição. vai fazendo constantemente, repetindo a dose com uma frequência cada vez maior, correndo pra lá e pra cá enquanto o dia se encarrega de fazer com que tudo realmente atinja e machuque por horas e horas. sofrimento incessante. voluntariamente. masoquista.

~.~

um dia fez uma carta, endereçou-a, selou e jogou fora. é sempre assim. mais fácil quando a sensação é de dever cumprido. seu dever era ir até o fim. não foi, mas ninguém precisava saber. todos iriam achar pra sempre que ela era a corajosa remetente de várias e várias cartas de amor que qualquer um gostaria de ter escrito mas poucos ficariam felizes em receber.

~.~

e ele, que desistiu dela achando que nunca conseguiria nada — talvez ela simplesmente não valesse o esforço, não é mesmo? — não sabia que, na próxima vez que AMEAÇASSE uma investida, teria em seus braços ela e o que mais lhe pedisse. agora não, tudo era diferente. depois de meses suportando a rejeição e sua própria insegurança, depois de tanto tempo tentando lutar contra si mesma, simplesmente desistiu. não cederia a ele, nem a mais ninguém. ou sim, quem sabe? mas hoje não queria pensar nisso.

por meses, seu grande e maior dilema foi como e o que dizer a ele. eram horas procurando as palavras certas para, quem sabe, iniciar um diálogo. hoje ela simplesmente não fala nada. não espera mais sinal nem mensagem algum vindo dele ou do universo. o universo não dá sinais, deus não vai com a sua cara, homem nenhum jamais vai amá-la.

são decisões pontuais que mudam a rota de seus dias.

~.~

é seu eterno querer alguém e não querer ninguém, seu constante um é pouco dois é bom que nunca funciona. dominar sentimentos não existe. existe a possibilidade de autoilusão, mas isso a imbecil também não quer mais, sempre acaba mal.

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pensou num remédio que pudesse aplacar sua enxaqueca constante (talvez para curá-la da carência também, se fórmula houvesse). um remédio que fizesse com que todos os problemas de seu universozinho hermético e impressionista fossem pulverizados de uma vez só.

~.~

o que podia ver era simples. jamais teve o coração de ninguém, sua sina era amar doentiamente um ou dois seres humanos, entrelaçar-se com mais meia dúzia, acreditar que seria feliz com dois ou três destes e, no fim, ver-se sozinha novamente, substituída pelas mulheres certas, aquelas que servem para andar de mãos dadas na rua e ir ao cinema, que sonham em casar e ter filhos. ela, seus gatos, seus livros, seus discos, como previa desde os cinco anos, quando escreveu seus primeiros versos.

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“algo me seduz / pois me apaixonei / não me deu bola / me decepcionei”. os primeiros versos de uma vida que seria completamente baseada na escrita. os versos aparentemente ingênuos que, 15 anos depois, resumiam toda sua existência, cercada de rimas pobres e desprezo total. ficava lendo livros, vendo filmes, acompanhando famosos. apenas uma forma de viver outras vidas, mehores que as dela — não de sofrer menos, apenas de ignorar o próprio sofrimento.

queria alguém que lhe amasse mas sabia que quando tivesse isso quereria outra coisa. a vida é assim. pelo menos a vida dela.

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tenho um reginaldo rossi em algum lugar dentro de mim, eu sei.