endless highway

“acontece que a gente sente o que quer sentir”, dizia ela atribulada por ter sido posta à prova por conta do cigarro alheio, da fumaça que sequer lhe pertencia. era uma discussão sem sentido algum, aquela. e, além de tudo, doía-lhe profundamente ouvir um “eu não estou te reconhecendo mais” da pessoa que mais amava em sua desprezível existência. coisas assim causam uma confusão monstruosa na cabeça dela. se ela sempre foi a mesma e já não a estão reconhecendo, o que acontece? acontece que não adianta abraçar os problemas alheios e nem tentar ajudar, a menos que você queira um problema também.  foi isso que ela descobriu ali, enquanto ouvia, sem paciência, um sermão sobre tudo o que já estava cansada de saber.

no mais, só tinha consciência de uma coisa: agora era uma ilustre desconhecida — de si e dos outros — e como machucava que fosse assim, engoliu calada o “amanhã conversamos”, virou-se para a parede e tentou dormir com o ódio pesando em seu coração. as palavras “você não é mais a mesma” conseguiam soar mais injustas a cada vez que sua mente as repetia.

para conseguir desligar, cantarolou bem baixinho: you’re gonna walk that endless highway, walk that high-way till you die. all you children goin’ my way, better tell your home-life sweet goodbye.

porque sim, ela era a mesma, e se não confiavam nela assim, significa é que os outros haviam mudado. não de uma maneira boa. better tell your home-life sweet goodbye.

3 comentários em “endless highway”

  1. sabe o que é tenso? me vi nesse texto, pois andam me dizendo “você não é mais a mesma”.

    ah, odeio essa vida tão complicada!

    well, acho vou cantarolar também…

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