i call it stormy monday

aparecias distante, uma loja de discos vazia, nós dois em seus extremos, cada um procurando aquilo que lhe apeteceria. por alguns momentos eu pensei em ir até onde estavas, mas pensei que tomarias isto como afronta. eu, que passei a vida toda sempre a ir atrás de ti, estava agora com medo do teu fantasma. era tempo de esperar-te vir ou simplesmente esquecer qualquer chance de redenção entre nós. fosse para continuar assim, sequer teria te deixado partir.

olhei minhas mãos: suavam. então voltei os olhos para teu extremo. escuro, nada lá. sumistes assim como sumiram os discos, sem deixar rastro algum. a chuva no vidro enquanto t-bone walker implorava — hey, baby, don’t throw your love on me so strong. assim como fizestes anos antes, nesse mesmo quarto. mirei o espelho, o reflexo à minha frente dizia “vai, acaba logo com isso”. ameacei queimar todos os papeis que de repente surgiram na mesa — todas aquelas cartas de amor que nunca tinha tido coragem de te enviar, agora devidamente envelopadas, endereçadas e seladas. hesitei. sentei à máquina mas não consegui tirar de dentro de mim sequer uma palavra.

desisti até mesmo da destruição instantânea. minha, das cartas, do que fosse. decidi que ia ser muito mais demorado, muito mais devastador. sangrento. olhei hesitante para a mesa cheia de pó, virei uma dose do Jack que deixastes antes de partir, acendi um cigarro, dois, três, muitos. chorei, escrevi, fumei até adormecer. escolhi continuar amando até o fim. a ti, àquele quarto, ao cheiro que deixastes impregnado em cada canto daquele cômodo.

a chuva, a lembrança, a saudade. tudo em mim era um intenso desejo de partir. i call it stormy monday (but tuesday is just as bad). aprendi contigo.

3 comentários em “i call it stormy monday”

  1. Muito bom. Me lembra um pouco um escritor português, chamado Lobo Antunes, conhece? Se não, acho que pode valer à pena dar uma conferida. Meus parabéns, pelo ótimo texto.

    Ariane: Pelo menos assim, de cabeça, não me lembro de conhecer Lobo Antunes não, Artemius. Mas vou procurar pesquisar, sou apaixonada por literatura portuguesa. 🙂

  2. Me emocionei aqui. Você escreve muito bem, menina! Não sei, tudo estava tão bem expresso no teu texto que é como fosse acontecer com qualquer um de nós, faz a gente parar e pensar, mesmo.

    Ariane: Oun, obrigada! 🙂

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