boca seca

dois dias atrás, numa das minhas incontáveis madrugadas insones, compartilhei com alguém: “uma hora eu precisarei desligar, não quero nem ver”. pois bem, eu já imaginava que meu corpo gritaria por socorro, só não pensei que fosse acontecer tão cedo. já fui muito mais forte.

pois foi tiro certo: depois de quatro dias de insônia e dores fortíssimas,  hoje cedi.  uma madrugada difícil e alguns comprimidos de antialérgico me salvaram da noite horrível que tive ontm. caí na cama, cheia de cólica e cansaço. rinite forte.

completamente destruída, passei o dia entre gemidos, largada na cama à espera da minha mãe, que me levaria ao médico.

porque veja: condição alguma de sair sozinha deste jeito.

**

não sei desde que horas estava lá o tal dr. ernesto, nem com que tipo de gente ele já teve de lidar hoje, mas seu humor não era dos melhores. talvez fosse natural, não sei, fato é que preferi respeitar. afinal, ele é o médico e, convenhamos, não faz muito sentido querer dele carinho — contanto que me respeite e faça seu trabalho.

estresse, ele apontou. como apontaria minha mãe, minha vizinha, como apontaria o espelho. “você está vivendo uma vida desgastante demais”, é o que todos dizem. ok, amigos, então não há cura para o meu mal. mas sempre há algum remédio que o amenize.

*

coloco os fones de ouvido enquanto ernesto me guia à enfermaria. morphine pra acalmar, remediar, acompanhar. o que quer que fosse.

***

quando você tem veias difíceis de alcançar, sofre toda vez que precisa tirar sangue ou tomar soro. sei disso desde pequena porque sempre esperei minutos em silêncio enquanto as enfermeiras futucavam meu braço — com os dedos e com as agulhas. pois bem, quando, já com essa dificuldade natural, você alcança os 95kg, torna-se praticamente impossível encontrar veia, de modo que, dez minutos depois de tentativas falhas, a enfermeira pergunta se pode furar sua mão.

apenas para sua informação: furar a mão doi. no dia seguinte, o local do furo está preto e inchado.
tomar soro pela mão é uma grande merda.

mas ali não havia opção. qualquer coisa é aceitável para alguém que está há quatro dias sofrendo de cólicas incessantes.

****

“a sua boca vai ficar seca e a visão turva”, essa é a última coisa que você a ouve falar. então sente o algodão com álcool na mão. como se fosse um carinho. em seguida, a picada.

a metáfora da minha vida: o carinho seguido da dor.

morphine está explodindo os fones de ouvido com bo’s veranda. “eu preciso me equilibrar”, é o único pensamento, “não posso mais ficar doente por estresse, sobrecarga ou cansaço. mas também não posso deixar de fazer nada do que faço hoje”. as palavras demoram para se agrupar. um pensamento simples leva minutos. tudo passa em câmera lenta. honey white. a senhora ao lado com uma crise alérgica, a mão já cor de canela contrastando com seu corpo pálido e magro. swing it low.

***

no caminho de volta pra casa, a chuva,  misturada com a embriaguez similar a das últimas sete caipirinhas (só que sem caipirinha alguma) traz certa melancolia. kerouac, a imagem do último role model destruído.

saudades dos quinze anos, mas eles já passaram, e, bom, foram uma merda. não vale a pena.

e eu sou tão feliz, porra, tudo é tão bom. mas nem tudo parece em seu devido lugar.

**

“você é tão negativa que às vezes até IRRITA”, ele disse ontem na mesa do jantar. engoli. compreendi.

e então resolvi assumir que Guimarães Rosa está certo (obrigadas e mais obrigadas, aldurin, pela lembrança).

“A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho. Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei, para de lá de tantos assombros… Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. Mesmo fui muito tolo! Hoje em dia, não me queixo de
nenhuma coisa. Não tiro sombras dos buracos. Mas, também, não há jeito de me baixar em remorso. Sim, que só duma coisa. E dessa, mesma, o que tenho é medo. Enquanto se tem medo, eu acho até que o bom remorso não se pode criar, não é possível.”

*

a travessia.

e agora eu vou, que amanhã é sempre um novo dia.

3 comentários em “boca seca”

  1. Nunca é bom chegar no limite, mas a gente sempre chega (no meu caso, atravesso). Insônia é uma parada que eu tento vencer há anos e já tomou forma humana na minha vida. É alguém com quem eu tenho que conviver diariamente e tentar não odiá-la como eu odeio todos os dias.

    Força pra ti, flor :**

    Ariane: Obrigada, Má. Acho que vale a pena chegar no limite, sabe? Pelo menos me esforço pra acreditar nisso.

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