21: all I want is all YOU got

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“Você só tem que arrumar um homem de verdade, guria”, ele disse. “Como se fosse fácil”, pensei. E ele leu nos meus olhos. “Não é fácil, mas é tudo o que você precisa”, continuou. Precisei de muita fibra para ignorar a vontade de dizer que ele era um dos poucos “homens de verdade” que eu conhecia (e que, sabendo que não podíamos estar juntos, seu comentário apenas intensificava ainda mais meu estado de desconsolo). Por sorte, o caixa ficou livre e era a nossa vez de pagar a conta. Fim do horário de almoço.

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só de saber que havia alguém como eu, era como se nunca tivesse vivido só.

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(Nunca sabemos os motivos reais. De repente estamos lá, sem palavras, pensando repetidas vezes na mesma pessoa, em uma ou diversas situações. Quem me dera houvesse poder de decisão. Quer dizer, há um momento, por muitas vezes sutil, em que decidimos sentir ou não. Eu passei por ele dizendo “sim, eu quero”, iludida por mim mesma.)

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_ Agora falei como se fosse uma cafajeste. Não é bem assim. Enfim, tenho problemas com homens, mulheres, animais, com o UNIVERSO.

_ Todo mundo tem, tu só és boa em reconhecê-los. Falta ainda resolvê-los, mas há de chegar o momento certo.

_ Isso de “momento certo” me consome desde o nascimento. Tudo sempre vem acompanhado de “na hora certa…”. É quase que um argumento para a derrota.

_ É um argumento para a paz. Há coisas que não se tem como resolver sem que seja no momento certo. Não que momento certo seja algo mágico e realmente existente, é mais como uma junção de fatores que nos aju-dam a resolver as coisas. E também não é questão de esperá-los, porque eles não funcionam de forma linear, te esperando daqui a quatro dias ou cinco meses. O tempo é totalmente dissolúvel e não se prende em meras amarras cotidianas com horas e dias. Esperar o momento certo é fazer o que tem que ser feito quando é hora. Não é pra ser um script. É pra ser o contrário disso. É parar de sentir algo. Ou começar. E isso não se quantifica nem cataloga. Desista.

_ Eu sei, eu sei, eu sei.

(Liguei na repetição mental: eu sei.)

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Houve um vazio. Não comunicacional, existencial. Certamente algo que já estava lá e que só depois de ter provado me dei conta. Eu não queria e nunca quis ficar sozinha. O problema é que, tendo dentro de mim multidões nada democráticas ou pacíficas, acabo caindo em contradição o tempo todo. Uma parte de mim quer deixar tudo como está, mesa posta, solidão, cada coisa em seu devido lugar. Outra quer bagunça, descontrole, aproveitar todas as companhias que aparecerem pela frente. Há ainda uma outra que gosta de sangue, dor, sofrimento, desilusões… E por que não haveria aquela que sonha com o príncipe encantado, o amor eterno e correspondido, o final feliz? Às vezes elas vivem harmoniosamente, mas, em geral, estão em eterna guerra.

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