imaginary movie #1: a carta que eu não enviei

ou: vinte e um justificado

em algum buraco no continuum tempo-espaço ou entre o “estás certo” e o “podes confiar em mim”, eu me perdi. e por “me perdi”, entenda: concordei e fui tua CÚMPLICE, sim, como previsto. não menti quando disse que o faria. mas em momento algum fiz isto ou aquilo porque fostes minimamente convincente ou coerente. se te protegi e te entreguei tudo o que me pedistes, foi simplesmente porque lá, desde o início, mesmo antes que eu mesma soubesse, já te amava. e foi difícil entender que isso era amor. foi difícil aceitar que todo o UNIVERSO que criei para me defender de eventuais interesses, carinhos e paixões irremediáveis havia falhado novamente exatamente com a ÚLTIMA pessoa por quem poderia nutrir algo do gênero. é esse meu gosto pelo PROIBIDO, só pode ser. pelo proibido e pelo incorreto, o imperfeito, o ilusoriamente IRRECUPERÁVEL (ilusória porque, no sentido aqui posto, quase tudo se pode recuperar).

enquanto outros buscam PERFEIÇÃO e idealizam pessoas sem defeitos, eu busco FALHAS. entrego sempre um pedaço ainda maior de mim a cada novo desvio que encontro em ti (talvez porque te sinta mais humano, mais próximo de mim), talvez porque saiba que não será surpresa nenhuma quando tudo der errado, quando um dos dois destruir tudo, quando mais um pra sempre chegar ao FIM. e no teu caso, embora a situação tenha vindo de um modo muito novo, muito estranho, ÓDIO e ÂNSIA, um desejo intenso de que não fosse nada, um nó na garganta IRREPARÁVEL toda vez que pensava em dizer a ti ou a qualquer outra pessoa a respeito de como estava me sentindo, depois de superar as lágrimas e nós, tive de ouvir (dos poucos amigos com quem compartilhei algo a respeito de nós) que todo esse meu bloqueio e angústia, e toda essa minha história de “eu não sei o que é isso, nunca senti nada parecido”, essa NECESSIDADE de repetir que não estava apaixonada, tudo isso era amor. AMOR, essa palavra que eu evito até mesmo REPETIR só por medo de validá-la (e desde quando sou capaz de dizer se um amor é válido ou não?).

amor, o nome dessa LOUCURA. dizer que sempre quis poder cuidar de ti, ver teu sorriso de menino (são poucos os momentos em que, ao olhar nos teus olhos negros e brilhantes, vê-se uma criança), fazer bem qualquer coisa que te agrade, só para poder ouvir tua voz contando a alguém, como faziam os meninos na pré-escola ao ganharem um brinquedo novo. eventualmente quis dividir espaço, alegrias, tristezas, alguma INTIMIDADE. além de minha vontade suprema: continuar a APRENDER contigo e, por tua causa, sempre, melhorar. saber cada vez mais. esse teu jeito único de me fazer sentir tão inteligente e tão vazia, tão carente de conhecimento, me impulsionou a descobrir muita coisa em pouco tempo. vês: sempre quis entender o DESAPEGO, ser capaz de praticá-lo. mas foi só quando te conheci que realmente senti que era a hora de começar. graças a palavras tuas vivi em seis meses mais do que havia vivido em dezenove anos — e não fazes a menor ideia disso.

um dia, porque teus olhos nos meus disseram que eu era ali a única pessoa na face da terra, eu me perdi. ali, numa das poucas vezes em que achei que realmente sabia e entendia algo — porque era contigo que falava a respeito de TUDO e NADA como se fossem a mesma coisa.

DEVOREI livros, tropecei em experiências, idas e vindas,  não foram só desejos. ouvi álbuns e álbuns que antes não me faziam sentido nenhum e COMPREENDI, mesmo que de forma errada, vários deles. da minha maneira, como tudo até então. minha maneira velha conhecida nossa, em que a transformação de femme fatale para menininha carente e assustada se dá AUTOMATICAMENTE, sem aviso, e em apenas alguns segundos.  foi assim que, em algum momento entre o acordo de BRINCADEIRA que fizestes questão de simular sério e as PROMESSAS de ambos de que tudo aquilo iria bem, em algum momento entre o nosso beijo estranho e sem encaixe e o abraço que me destes no escuro do quarto, eu me perdi. eu entreguei os pontos e o sentimento tomou conta. mas não foi de todo mal, não. depois que aceitei essa condição, que encontrei finalmente a definição para aquilo que por dias e dias fez-me isolar e calar e SUCUMBIR a uma enorme tristeza aparentemente sem razão, pude finalmente ficar em PAZ. feliz porque estás bem, feliz porque sei que há solução. mesmo quando a única solução possível é o TEMPO, que leva e põe no lugar todas as coisas.

mas não é o fim, ainda. antes de tudo, preciso dizer, ao menos uma vez e sem medo algum: EU TE AMO. de uma forma engraçada, sublime, desinteressada, fraternal. eu te amo sem querer nada em troca, satisfazendo-me apenas em poder assistir, por assim dizer, a cada novo riso teu. sem te conhecer, sem ser conhecida por ti.

eu te amo como nunca antes amei ninguém e como provavelmente nenhum outro homem será amado. e, ao mesmo tempo, eu tenho a mais absoluta certeza de que nunca te amei. porque sentimentos são assim, indiscutivelmente únicos.  inefáveis.

3 comentários em “imaginary movie #1: a carta que eu não enviei”

  1. Lendo esse texto eu me questionei se você sou eu ou vice-versa. Minha situação atual descrita detalhadamente no post, sério.
    Maravilhoso seu blog!
    beijon, mm

    Ariane: Tem situações pelas quais todo mundo passa de alguma forma, né? =)
    Que bom que se identificou! volte sempre 😀
    Beijos

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