Chave

E daí que eu estava sonhando com um dos meu mil causos de amor platônico e, no meio de um diálogo entre os dois, disse uma frase qualquer. Só que a frase qualquer surtiu um efeito estranho, do gênero COMO NÃO PENSEI NISSO ANTES e, do nada, eu acordei repetindo-a e procurando com as mãos um papel e uma caneta para anotar, como se fosse a solução de todos os meus problemas recentes. Até aí, normal. Acontece sempre. Quase derrubei o notebook que fica na cabeceira da cama tentando pegar o moleskine que deixo ali exatamente para situações como essa. Pensei “porra, já escrevi coisa muito melhor. já pensei coisa muito melhor e deixei passar”, parei de tatear o universo, fechei os olhos e voltei a dormir. Voltei a dormir? QUEM ME DERA. A frase começou a se repetir ad infinitum na minha mente. Em todos esses anos nessa indústria vital, essa é a primeira vez que isso me acontece. Uma coisa meio neurótica, até, porque vejam bem, gente, não era O SEGREDO DO UNIVERSO, era só um devaneio-discussão-de-relacionamento. Digamos que eu NÃO DORMI MAIS. Fiquei num estado transitório ali entre sonho e realidade em que eu falava a mesma coisa o tempo todo. Para mim. Para os meus pais. Para os caras por quem sofri. Para os caras por quem sofrerei. Para aqueles com quem eu fiquei só pra ver como era. Extremamente bizarro. Horas e horas assim.

Às cinco, quando levantei para ir trabalhar, finalmente anotei a tal da fala no moleskine. Coloquei ele de volta na cama. Pensei bem, arranquei a página com a anotação e coloquei na bolsa. Vai saber, né? Depois eu deixo a anotação em casa e a frase me atormenta pelo resto do dia, deusmelivre. Não ando muito certa das coisas, mesmo.

No caminho, olhando com atenção, entendi a reação (exagerada) da minha cabeça. É exatamente o gancho que eu precisava para terminar um livretinho que não consigo parar de revisar há um mês. O que me mata é que (além de ser simples) ela é só um elemento pequenino num universo de frases e clichês e discussões mal sucedidas e relacionamentos platônicos e conturbados. Quer dizer, uma noite de sono se foi e é capaz que (supondo que alguém além de mim leia o livreto) ninguém nunca enxergue tudo o que há ali. Pior (e mais plausível ainda): é capaz que entendam tudo completamente às avessas.

Se bem que é por isso que eu amo tanto a literatura.

E aqui vem a ênfase: amo CONSUMIR, não PRODUZIR — — se é que esses são termos cabíveis, rola toda uma reflexão que eu não vou fazer agora — literatura. Até mesmo porque eu já cheguei a conclusão de que não sei criar, eu vivo. Imaginação aqui, não trabalhamos. Mas não vou chorar minhas pitangas por não ter nascido genial como os caras que admiro desde criança. Não agora. Eu só precisava deixar constar aqui que ando mais desequilibrada que o normal.

(E que finalmente eu entendi o que faltava do último universo que construí, bora partir pra um outro!)

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