janeiro

já faz quase uma semana que ela se foi.

nunca tinha sentido o que senti. assim, como se tivessem tirado o chão que eu tinha firme  sob os meus pés. sofrimento é uma coisa engraçada: por mais que pareça ter chegado a um limite, acaba sempre sendo maior mais tarde. eu demorei a chorar, a entender, a aceitar. mas a dor eu senti desde o início.

eu nunca tinha ido a um velório. não pretendo ir novamente, salvo raras exceções. não tem nada mais triste do que guardar na memória a imagem estática, pálida, imóvel e fria de alguém que viveu ao seu lado desde seu nascimento. alguém que eu preferia que povoasse pra sempre minha mente com sua felicidade contagiante, sua pele bonita e bem cuidada e os cabelos caídos sobre a face. aquela no caixão não era ela. era um boneco de cera, era qualquer coisa sem a cor e a vida que estiveram naquele corpo outrora. os cortes nas mãos, na face, a maquiagem malfeita e o vestido surrado. não ela, vaidosa, sempre bem vestida, cheirosa, penteada.  queria a imagem dela feliz com todos os filhos e netos a sua volta no último reveillon, como nas fotos ainda guardadas na minha camera digital. mas só consigo lembrar do cadáver e de pessoas chorando a minha volta.

eu só consigo pensar nas minhas faltas e falhas, não nos momentos bons.

naquele dia [e nos seguintes] eu precisava de alguém pra me abraçar. não era uma pessoa em quem eu fosse me apoiar,  que sempre fui forte o suficiente pra levar tudo sozinha. mas precisava de um carinho. alguém que me lembrasse que tudo ia ficar bem. não conseguia mais ver minha mãe e minha irmã destruídas por não saberem lidar com as perdas. queria fazer bem a elas, então precisava reprimir a minha dor – já havia duas pessoas sob o olhar pesado e preocupado do meu pai e eu nunca havia recorrido a ninguém antes, nunca. mas dessa vez eu implorei ao mundo por colo.

falhou. ninguém deveria mendigar carinho ou atenção. ela e suas mensagens eram um exemplo disso. enlouqueceu tentando. morreu sozinha. eu me esqueci disso na hora do desespero. de certa forma, foi bom. descobri que não devo mesmo mudar esse meu jeito fechado de ser, que devo continuar desconfiando de tudo e todos. segui a vida, essa sempre foi minha maneira de lidar com a morte. voltei ao trabalho, aos sorrisos plásticos e aos movimentos fantoche. eu aprendi muita coisa esses dias, com toda essa dor. crises de nervoso, taquicardia, ansiedade e 5kg a menos não foram em vão.

especialmente porque aprendi que vou continuar querendo um abraço, mas que não preciso disso pra seguir em frente.

quem é forte consegue viver sem precisar de outras pessoas ou muletas alternativas, mesmo que demore um pouco mais pra se livrar da amargura da solidão. e hoje eu só quero uma demonstração afetiva se ela for verdadeira. não mendigo mais nada pra ninguém.

2 comentários em “janeiro”

  1. Minha mãe sempre dizia que não valia a pena ver a pessoa depois dela ir embora. O caixão do meu irmão ficou fechado, pra ninguém lembrar disso. Ela diz que quer o dela também fechado, e o meu pai nem vamos ter o que velar, ele quer doar o corpo inteiro para a faculdade de medicina.

    Essa memória não vale a pena, não há o que lembrar de um velório, até pq não há nada ali.

    Sobre mendigar carinho… bom, a gente sempre diz que vai parar, e sempre busca essa atenção denovo. Daí dá um tempo, e a gente muda, para, não pede mais carinho, consegue seguir sozinha. É um alto e baixo do qual acho que nem um nem outro está certo. São só diferenças.

    (te adoro, sabia? vc e esse caldeirão de emoções sinceras!)

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