Papeis

Vou acender velas para a Madona, vou pintar a Madona, e comer sorvete, anfetamina e pão – “Maconha com carne de porco”, como disse Bhikku Booboo – Vou para o sul da Sicília no inverno e pintar lembranças de Arles – Vou comprar um piano e me mozartear – vou escrever histórias tristes e compridas sobre pessoas na lenda de minha vida – Este é meu papel no filme, vamos ouvir o seu.

(Jack Kerouac, Tristessa)

Eu queria escrever a história de nós dois. Seria como Tristessa, talvez: você viciado em viver, eu presa aos meus princípios, minha própria religião. Dependências distintas, sofrimento parecido e um final indiscriminadamente infeliz. Tão real quanto infeliz. Ou não. Talvez feliz, exatamente por ser real. Mas eu não tenho força pra falar de nós dois. Acabo sempre errando, fugindo, sofrendo… Caindo no lugar comum. E nossa história foi tudo – tudo! – menos lugar comum.

Pensando bem, não seria como Tristessa. Seria nossa, só nossa. Nossos próprios papeis, nossas próprias ideias. Como ninguém nunca viu igual.

(Se meu papel no filme for mesmo esse, de contar a história… Talvez eu ainda não esteja preparada pra falar do final. Só isso.)

Pra cada recomeço, um novo tombo.

5foto Mais uma vez eu perdi o chão. Não sei o que me resta além das coisas banais. Não sei se deveria restar algo. Eu cansei de mendigar atenção e carinho, de nunca ser boa ou interessante o suficiente, de não conseguir ser atraente, não conseguir ser amada, não conseguir fazer valer a pena. Cansei de ficar fingindo pros outros e pra mim mesma que está tudo bem – não está. E cada vez que eu luto pelo que eu quero eu me sinto mais distante do que eu mereço. Primeiro, porque fica claro que não vou conseguir. Depois, porque ninguém, em momento algum, merece sofrer e ser desprezado como tenho sido. Estou cansada de tudo, de todos. Sentindo um peso dentro de mim, ME sentindo um peso para os outros. E aí eu me fecho no meu mundinho pra não incomodar ninguém e parece que é ainda pior, que incomodo mais, que destruo o lado de lá e o de cá enquanto tento ser inofensiva. Eu dei tudo de mim, eu sempre dou tudo de mim. É errado, é tão errado quanto exigir tudo do outro – coisa que eu nunca fiz. Eu nunca exigi nada. Sempre me contentei com o que estivessem dispostos a me oferecer. Migalhas que fossem. Atenção. Carinho. Só precisava saber que não era em vão, mas tem sido em vão há tanto tempo… Eu tenho agido como uma idiota. Sido tratada como idiota. Sofrido feito uma idiota. Não quero minha mãe, meu pai e minha irmã preocupados, me vendo chorar, me vendo emagrecer, deitada na cama durante uma semana sem a mínima vontade de botar a cara no mundo. Eles me dão forças, eles cuidam de mim, mas eu não quero isso. Não quero ser uma decepção. Eu sempre fui a filha forte, a filha determinada, a menina inteligente, a primeira da classe, a garota que sabe o que quer, a das duas faculdades, comportada, estudiosa. Cadê eu, que hoje não tenho sido nada disso? Por que eu ando tão contraditória? Quando começo a evoluir, dou passos pra trás. Não está certo. Nada disso. Nada. E eu não durmo mais. Se cochilo, é com ele que sonho. Sonho? Só o que tenho são pesadelos. Isso é obssessão, isso é doença, eu quero algo em que focar. Minhas aulas de volta, peloamordedeus. Tentei um emprego, não consegui. Não quero qualquer coisa, eu nem tento qualquer vaga. Quero algo que valha a pena. Mas eu tenho que valer a pena para ser contratada, e aí? Por que eu fui cavar ainda mais fundo esse buraco? Por que eu deixei essa ferida infeccionar, apodrecer? Por que? Por que não curei tudo enquanto era tempo? Eu que antes era tão forte, hoje só sei chorar. Leituras prejudicadas, devaneios, memórias e mais memórias que não consigo apagar nem evitar. Tenho visto o tempo passar e me deixar pra trás, eu, Ariane, antes forte, orgulhosa, hoje afundada num mar de desespero, sem nenhum amor próprio, a cada dia vendo menos graça na vida. Queria enxergar em mim esses valor que os outros tanto dizem que tenho. Às vezes sinto que isso diminuiria consideravelmente meu sofrimento. O pior de tudo é que não posso culpá-lo. Não posso culpar ninguém, a não ser a mim mesma. Só eu posso controlar tudo isso, e se eu perdi o controle, azar. Sofrer menos, será que isso é ambição demais? A sensação é de que eu não vou aguentar. Posso confessar? Eu não quero mais aguentar.

Eu tenho, cada vez mais, desejado o pior. Com todas as minhas forças.

E daí?

Se alguns momentos de nossa vida dispensam explicações, outros exigem-nas. Mas talvez seja exatamente nesses momentos que devemos tomar mais cuidado com o que dizer.

Eu teria muito a explicar aqui, só que não sei como fazê-lo. Passo meu tempo ocupada em me voltar pra dentro, parece estar dando certo. Ainda existo neste twitter para quem aguenta minha verborragia. Neste twitter pra quem só quer ter certeza de que estou mesmo viva. Vira e mexe eu volto pro Tumblr. Andei tão frenética por lá esses dias que até acabei falando lá até o que não devia.

Essa madrugada o trecker twittou “Quantos % da sua timeline poderia ser respondido com ‘E daí?'”. Óbvio e ululante que desencanei totalmente da questão e fui me analisar. Confesso que parei pra pensar e, nos primeiros segundos, até me senti culpada por não falar muita coisa útil por lá. Depois me lembrei da única pergunta verdadeira do Twitter: “What are you doing?”. O resto são regras criadas por usuários e seguidas ou não por eles mesmos. E a verdade é que, em 99% do tempo, tudo o que estamos fazendo pode ser respondido com um “E daí?”. Sempre vai ter alguém que se importe, que ache interessante. E sempre vai ter quem pense “foda-se!”. Ainda bem. Eu não sei quem foi que inventou que temos de agradar a todos, e nem quero saber.

Então estou tentando viver a vida assim. Fazendo o que sei fazer e sendo eu mesma, como sempre fui. Sem agradar a todos, embora às vezes pareça chato ser assim, embora eu pense muito nisto.

E estou muito bem, obrigada.
Ou talvez não, mas isso é algo que não convem dizer aqui no blog.

Beijão,

Ari.