Refúgios Literários I

Eu e ele nunca fomos nada senão um sonho meu.

Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim, pude esquecer-me na visão do seu movimento.

Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumavam – quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes da paisagem – uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar.

A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. (…) e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.
(…)

Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!

Fernando Pessoa, em O Livro do Desassossego.

5 comentários em “Refúgios Literários I”

  1. Fernanda Pessoa é inquietante em tudo que faz, tudo que coloca os olhos deixa aquele ar de questionamento, de inquietação, fico arrepiado só de lembrar da sensação de vê-la pela primeira vez, um misto de medo e curiosidade.

  2. erro básico de gênero ai em cima desconsidere-o

    Fernando Pessoa é inquietante em tudo que faz, tudo que coloca os olhos deixa aquele ar de questionamento, de inquietação, fico arrepiado só de lembrar da sensação de vê-lo pela primeira vez, um misto de medo e curiosidade.

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