Refúgios Literários I

Eu e ele nunca fomos nada senão um sonho meu.

Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim, pude esquecer-me na visão do seu movimento.

Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumavam – quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes da paisagem – uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar.

A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. (…) e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.
(…)

Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!

Fernando Pessoa, em O Livro do Desassossego.

segredinho

estava lá presa no meu mundinho de leituras (porque não há melhor maneira de escapar do mundo senão entrando em outros e, mesmo eu que nunca fui muito fã de escapismo, estou numa fase em que correndo ou ficando a dor é a mesma). enfim, imersa na literatura alheia eu (que hoje estou acima do piegas e me identifico com tudo) comecei a pensar na bela vida que ando levando presa a esse querer e não poder ter. hoje, não pela primeira vez, ouvi (li) que ter e não querer também é horrível. a gente nunca pensa desse ângulo, né?

pensa. eu já tenho pensado faz um tempo. e é ainda pior, porque daí você se sente um incômodo. sabe? pentelho. e, segundo definição recente exatamente daquele a quem eu gostaria de ter, “se pentelho valesse dinheiro, mictório era milionário”. pentelho de nada vale. novas paixões, eu quero. um novo amor. querer o que me quer, ou tudo ou nada, nunca gostei desse meio-termo-vai-não-vai, mendicância sentimental, um tal de ficar esmolando amor. amor não se pede. ninguém nunca me pediu ‘me ame’, e nem por isso amei pouco nessa minha curta existência. foi então, mais ou menos nessa hora, que eu pensei nas vezes em que eu fui quem tinha e não queria.

e daí que vira e mexe eu brigo com os amigos, e fico brava, cheia de não me toques, “não julgue o livro pela capa”, eu digo, mas quem sou eu? eu sou uma menina de dezenove anos que parece que tem quinze e quase sempre infelizmente vive a vida como num romance e ainda julga vez por outra – não por mal, mas por impulso – o livro pela capa. é. uma bobona que fala da vida pessoal em fragmentos de 140 caracteres, se apaixona pelas pessoas erradas e adora viver sofrendo, por mais que odeie sofrer. eu me revelo muito a quem me merece muito pouco. então a culpa é minha, eu é que sou uma bocó. só não conte pra ninguém.

Memórias inventadas.

Estava lá, exatamente da maneira como aconteceu:

– Theresa, desculpa por te fazer passar – por nos fazer passar – por isto na nossa última noite. Não era minha intenção. Acredita em mim, não foste apenas um caso para mim. Deus, tu foste tudo menos isso. Eu disse-te que gostava realmente de ti, e foi a sério.
Ele abriu os braços, os seus olhos implorando para que ela viesse para o seu lado. Ela hesitou durante um segundo, depois acabou por se encostar a ele, com um número infinito de sentimentos contraditórios irrompendo na sua mente. Encostou o rosto no peito dele, não querendo ver a sua expressão. Ele beijou-lhe o cabelo, falando docemente, com os seus lábios agitando-se sobre ela.
– Gosto muito de ti. Gosto tanto de ti que me assusta. Há tanto tempo que não me sentia assim, é quase como se me tivesse esquecido de como outra pessoa pode ser tão importante para mim. Penso que não poderia simplesmente deixar-te partir e esquecer-te, e não o quero. E decididamente não quero que a nossa relação acabe agora. – Por um momento ouvia-se apenas o som suave e constante da sua respiração. Por fim sussurrou: – Prometo fazer tudo o que for capaz para te ver. E vamos tentar fazer a nossa relação resultar.
A ternura na sua voz fez com que as lágrimas dela começassem a cair. Ele continuou, quase demasiado baixo para ela ouvir.

Nicholas Sparks, em As palavras que nunca te direi

O que mais me fascina nos livros é que, vira e mexe, sem querer ou não, acabamos encontrando cenas da nossa vida escritas nas páginas deles, muito tempo antes de, de fato, acontecerem. De repente você pega um livro que está na estante te esperando há meses – anos! – e descobre que, se o tivesse lido antes, talvez não sofresse muita coisa. O que é bom e ruim, porque afinal, viver – seja quando as coisas dão certo, seja quando dão errado – é basicamente acumular experiências. E sofrimentos. Sempre vale a pena, sempre.

Sempre Déja Vú

Eu tô exatamente aonde eu devia/queria estar. 19 anos e tanto já me aconteceu. Tanto pra acontecer… Dessa vez eu lembrei disso depois de ler esse post.

Ansiedade e bobagens românticas tomaram conta da minha cabeça duma forma nos últimos tempos que fez com que eu nem desse o valor devido às coisas maravilhosas que têm acontecido comigo. Sério, parar e repensar foi a melhor decisão.

Assim que eu estiver mais calminha, conto aqui como foram: os shows que andei cobrindo, as férias com a família, o desfecho da história de ‘amor’ a qual eu mais me entreguei, a minha primeira entrevista de emprego, as minhas melhores notas na usp até hoje, o início das aulas…

Ou eu não conto nada e recomeço a vida. Sei lá, depende do ânimo. Mas sinto que a vibe agora é a melhor do mundo. É só correr atrás.

(Tô pensando em viajar pra fotografar. Quero sair um pouco do mundo, compreende? Fugir. Preciso de companhia, tempo e di$po$ição.)

na verdade…

… chega de pensamento derrotista, né? Tô mal? A vida segue.
tory2

Ahhh, Cérebro Eletrônico! ;~

Tatá Aeroplano bem podia ficar comigo.

aparição-relâmpago

Carta para não mandar

Dispenso-a de comparecer na minha ideia de si.

A sua vida Isso não é o meu amor; é apenas a sua vida.

Amo-a como ao poente ou ao luar, com o desejo de que o momento fique, mas sem que seja meu nele mais que a sensação de tê-lo.

Fernando Pessoa em O Livro do Desassossego.

Eu estou sangrando tanto por dentro que o sofrimento já não cabe mais em mim. Quero sumir do planeta. Um emprego, quem sabe. Uma distração.
Eu só não quero mais continuar vivendo essa vida. Pensando no que foi, no que podia ter sido. Nos erros que eu (não) cometi.

Eu só não quero mais ter de ficar mentindo pra mim.
Quero que a dor passe logo e que o amor vá embora, porque já não é mais bem-vindo aqui.
E eu sei, sei mesmo, que sou capaz de esquecer.

The hardest part

I could feel it go down
Bittersweet I could taste in my mouth
Silver lining the clouds
Oh and I
I wish that I could work it out

And the hardest part
Was letting go not taking part
You really broke my heart

And I tried to sing
But I couldn’t think of anything
That was the hardest part

I could feel it go down
You left the sweetest taste in my mouth
Your silver lining the clouds
Oh and I
Oh and I
I wonder what it’s all about

I wonder what it’s all about

Everything I know is wrong
Everything I do it just comes undone
And everything is torn apart

Oh and it’s the hardest part
That’s the hardest part
Yeah that’s the hardest part
That’s the hardest part

Crying my heart out

São Paulo, 27 de Março de 2009.

O.

Não sei se me achará imoral ou descarada… Não sei. Sei que não deveria nem dizer nada disso – sei para mim, mas você sabe que não me dou mesmo muito valor.
É que hoje, ouvindo sobre amor, poética e lembranças, com o olhar fixo, sem querer, a um cartaz em que só havia uma palavra, eu lembrei (e foi com ternura, juro!) de você me olhando de cima. De nós dois juntos e de quanto prazer eu tive ao seu lado (é que estar ao seu lado, por si só, já era um imenso prazer pra mim). Lembrei – de novo – das tardes que eu passei contigo, especialmente aquela com “Os Sonhadores” ao fundo.

Acho que entendi sua vontade de rolar na cama dia desses. E me senti um monstro por ter lhe desprezado tanto por causa disso. Tive meus motivos, é claro, mas não sei se deveria ter sido tão intolerante. Agora, aqui estou eu, sentindo o mesmo. Sentindo saudades de olhar seus olhos, de baixo pra cima, trocando carinhos gostosos. Senti você tão presente, que, por instantes, tive certeza de que sua voz sussurrava ”te aperto” nos meus ouvidos. E esperei o beijo que sempre vem depois disso, mas ele não veio. Doeu um bocadinho. Foi a lembrança boa de quem sabe que acabou, mas não quer esquecer o que aconteceu.

Além de tudo isso, o que senti foi vontade de lhe contar. De compartilhar minhas lembranças – de agradecê-lo por fazer parte delas, das boas e das ruins. E pedir pra, por favor, não ser esquecida. Foi tudo muito bom pra simplesmente jogar fora. Bobagens de quem finalmente entendeu que certas coisas não voltam.

Acho que quando eu for velhinha ainda vou lembrar de você. Talvez, com esse mesmo carinho, eu diga a alguém: “um dia eu amei…”.
Talvez.

De qualquer forma, um beijo…
Só precisava lhe contar isso;

A.

Amiguinhos, pela sanidade mental de vocês, não fucem suas pastas de “mensagens enviadas”.

Insônia

(postsecret)
(postsecret)

Uma das piores facetas da insônia é que, não importa o quanto você role na cama, bata na cabeça ou tente não pensar em nada, ela simplesmente não te deixa escolher no que não quer pensar – o que significa que, certamente, seus pensamentos vão se focar de forma caótica exatamente naquilo que você menos gostaria de pensar a respeito.

Eu confesso: tenho fugido, sim, de pensar nele e em todas as coisas que rolaram nos últimos tempos. Não estava sendo saudável pensar nelas 24 horas por dia. Cheguei a dormir quinze horas seguidas esse fim-de-semana só pra não ficar acordada sofrendo – mas dessa vez não teve jeito, a insônia pegou, me sacolejou na cama e intimou: você vai sair dessa (ou afundar de vez, quem sabe?) agora, chega de ficar fingindo que está tudo bem.

Há mais de um mês não consigo ler direito. Quem me conhece sabe o quanto isso é grave. Há mais de um mês eu não tenho (de novo) autoestima, não tenho coragem, não tenho muitas razões pra sorrir por aí. E isso é bobagem! É bobagem, porque as coisas têm acontecido pra mim. Têm se concretizado, vindo atrás de mim quando não vou atrás delas. Não é assim pra todo mundo. Aí vem um sentimento filhadaputa pelo qual a única responsável e culpada sou eu e ousa atrapalhar meus planos? Não, hoje não, agora não dá. Agora eu não quero amar ninguém, não quero ficar pensando em como poderia ser se esse alguém também me amasse, não quero mais saber se ainda pensa em mim. Não está me fazendo bem.

Ontem eu me vi aconselhando uma amiga exatamente na mesma situação que eu (e que, na cabeça dela, é diferente, mas enfim) e dizendo pra ela exatamente o que EU deveria fazer. Não que eu já não o tenha feito algumas vezes esse ano, não que eu não esteja disposta a fazê-lo agora… Mas me senti meio hipócrita por saber o que tem de ser feito e mesmo assim agir da forma errada – já que só quem sofre com isso sou eu.

“Enfim, acho que já passou da hora de pararmos de encarar a vida feito conto de fadas…”, eu disse. E ela me respondeu “O foda é que tudo é ele.”. Debochei. “Pf, como se eu não soubesse… Cada música, cada cor, cada sinal de telefone, cada mensagem que não vem ou que não mandamos, cada casal de filme, novela, comercial, cada tweet aleatório, cada menção ao amor…”. Foi aí que ela ficou surpresa. “Você me entende”, disse, sem saber que era a mim mesma que estava descrevendo. E então falou algo que me fez acordar de vez. “Dá vontade de voltar atrás. Chegar e dizer ‘ESQUECE, eu te amo, vem pra cá *abraça*’, mas… Eu tava só me machucando”. PERAÍ, apitou aqui dentro. Foi exatamente isso que fiz há alguns dias. Eu corri atrás. Liguei, mandei mensagem, insisti, fiz tudo que tive vontade. E foi exatamente isso que acabou me arruinando de vez. Tentei explicar: “Sabe o que acontece? Eles podem até voltar, mas isso não muda nada do lado de lá. Só do lado de cá. E do lado de cá, com ou sem eles é sempre muito doloroso. Só que com eles não tem jeito de melhorar. Sem eles sim”.

Não é covardia da minha parte, como pode parecer. Ela mesma argumentou que estar com eles é melhor a curto prazo, que os momentos bons compensam tudo, que só dói mesmo quando vemos tudo de longe. Mas não é verdade. Eu e ela já sofremos o que tínhamos de sofrer. Já enfrentamos os problemas, as nossas adversidades e as deles. A questão é que não se pede nem se compra amor. Ou ele existe, ou não. Infelizmente, pra nós, eles eram os “The One”. Pra eles, nós éramos “mais uma”. A conclusão que dei à ela dei também a mim mesma. “A gente sofre até quando está com eles. Porque tem uma hora que a não-reciprocidade não consegue mais se esconder. E incomoda. Ficar com eles é arrancar todos os dias a casquinha da ferida. Deixá-los é esperar cicatrizar e ir embora em paz.”

Deixá-lo é esperar a ferida cicatrizar e ir embora em paz

Só consegui pensar nisso a noite toda. Em como foi bom, em como eu queria mais e mais e mais. No tempo que perdi me guardando pra mim mesma, e ao mesmo tempo, no que eu ganhei sendo assim. Eu preciso dele, mas ele não precisa de mim – e isso tem que acabar agora, enquanto é cedo, enquanto ainda não fiz tantas besteiras, enquanto não me deixei tomar demais pelas loucuras que a paixão costuma causar. Eu quero paz, só preciso de força pra deixá-lo. E isso eu acho que não é impossível conseguir… É só lembrar que já fui capaz uma vez. No mais, nós duas temos nos preocupado taaaaaanto com eles, em como largar mão, em como terminar… E pra eles nada nunca nem começou, nós nem estamos aqui.