Ciclo

Verificar se você escreveu alguma coisa ainda é a primeira coisa que faço pela manhã. Um ritual que começa ligando o celular (mentira, eu durmo com ele ligado, agarrado às minhas mãos, esperando acordar ao mínimo sinal de uma mensagem ou ligação sua) e passa por email, blogs – o meu e o seu , twitter, orkut, msn, gtalk, a esperança diminuindo aos poucos, a dor aumentando progressivamente.

O celular tem uma mensagem doce, como lhe é de praxe mandar. Mas o email está vazio, o blog esttá vazio, seus tweets me são indiferentes (e pensar que antes, todos os dias, era você o primeiro sempre a me dar bom dia, com uma direct doce), no orkut há mil garotas dizendo o quanto te amam, o quanto você lhes tira o fôlego. Nessa hora meu coração já está dividido numa quantidade irreparável de fragmentos, todos vivos. Parece que quanto mais você me machuca, mais eu te amo, como se cada pedacinho se partindo fosse um novo coração. Milhares de corações dentro de mim, todos batendo por você – e só por você.

Eu perco o valor, o carinho, eu perco o respeito de algumas pessoas por isso. Pessoas de quem gosto muito, com quem eu gostaria de passar muito mais tempo. Eu poderia simplesmente fingir que não dói nada aqui, que nada mais se passa em mim quando nos falamos, quando você me liga dizendo que vem me ver. Mas não. Eu continuo te esperando, mesmo sabendo que você promete, promete, promete – mas nunca vem. Talvez eu tenha nascido pra sofrer assim, burrinha. Errado é não viver a vida uma ova, por mais que eu goste de outra pessoa, por melhor que seja ficar com alguém, às vezes sinto que estou me enganando quando digo que não quero mais ficar com você. É.

Porque verificar se você escreveu alguma coisa ainda é a primeira coisa que faço pela manhã. E meu coração vai se partindo… Mas continuo aqui, esperando.

Princípios

Eu era uma garotinha de muita fé. Nem só em Deus, sabe? Na maior parte do tempo, a minha fé era também nos seres humanos. Aos nove anos, de tanto eu implorar, minha mãe me colocou no colégio da igreja que frequentava desde os sete. Era longe, mudava toda a rota da família, mas eu queria crescer educada por princípios. Os princípios certos, tudo com base na Bíblia, sempre respeitando a vontade de Deus. Que mãe recusaria um pedido assim? E eram esses os meus argumentos pra ela. Enfim, lá estava eu, exatamente onde queria estar. Naquele lugar fiz 5ª, 6ª e metade da 7ª série. Certinha, caretinha, gordinha, nerd como sempre fui. E ainda participava da Turma do Printy – que, poxa!, era a alegria da minha vida na infância. Quando saí de lá, aos onze-quase-doze anos, já desacreditava um pouco; sofri lá mais preconceitos e exigências do que antes, lá, onde se dizia que “todos são iguais perante Deus”. Achei que fizesse parte da adolescência, já que sempre fui, embora muito obediente e muito certinha, uma pessoa com personalidade, digamos, excêntrica. Queria ter o meu cabelo colorido, usar as minhas roupas pretas, meus rebites na mochila, lápis preto no olho, meus piercings. Sempre achei que isso não tinha nada a ver com fé. Com Deus. E lá eu não tinha essa liberdade. Não tinha liberdade nenhuma. Os princípios, já adquiridos, viriam comigo pra onde eu fosse.

A adolescência? Passei quase toda ela na igreja, ainda. Só tinha saído da rigidez inútil do colégio. Virava e mexia, eu me decepcionava um pouco, mas continuava lá. Nunca deixei de lado a fé, não é isso. Eu só tinha (ainda tenho!) minhas razões pra acreditar que Deus era maior que aquilo. Mas fui deixando levar. Aos quinze anos, hormônios a mil, apaixonada por um garoto da igreja – proibida de namorar, porque lá era assim – sofri uma série de ataques indiretos. Pessoas falando mal, fofocas, intrigas, ameaças, líderes vindo em casa “conversar”. Chegou ao ponto de pastor fazer culto falando do caso sem citar os nomes. Não precisava, porque todo mundo já sabia de quem falavam. Igreja pequena é pior que cidade do interior.

Em momento nenhum eu havia fugido aos princípios, que fique bem claro. Disse ao garoto que não queria, que, se ele quisesse, teria de esperar. Eu nunca tinha beijado ninguém. Eu nunca beijei aquele garoto. Tínhamos um acordo. Um esperava o outro. Sentávamos perto, demos as mãos algumas vezes… Mas nunca fizemos nada além disso. Acontece que o que há dentro de uma igreja é exatamente o que há fora: seres humanos. Eu sei disso porque eu sempre fui eu mesma, dentro e fora de lá. Eu, sempre muito rock’n’roll. Todo mundo comentava, todo mundo olhava torto, e eu ria de todo mundo porque, fora de lá, muita gente que me dava lição de moral fazia coisas piores. Pessoas que estudavam comigo. E eu nunca abri a boca pra falar isso pra ninguém. Pois bem: dentro da igreja, aqueles que não têm personalidade suficiente para assumirem seus gostos e vontades criam uma segunda vida, uma vida casta que acaba da porta pra fora. Seres humanos que, com base em princípios bíblicos, utilizam o argumento de “tomar conta do irmão” para poderem fofocar/cuidar da vida do outro sem serem castigados ou se sentirem culpados por isso. (Não estou generalizando – estou dizendo que há pessoas assim, que estão no lugar pelos outros, não por Deus: mas não são muitas, nem são todas.)

Pois bem: O tal do bonitinho, na época com 18 anos, arregou quando sua irmã mais velha caiu na fofoca. Porque eu, desde o começo, contei para os meus pais sobre nosso “relacionamento”. Ele não. Ele era do tipo “santo aqui dentro, pegador lá fora”. Já não era mais o mesmo. “Queria ficar comigo”, mas não me defendia perante a irmãzinha – que achava que eu queria levá-lo para o mau caminho. Sim. Pra irmã dele, eu criei toda a situação. Ela era amiga de garotas apaixonadas por ele, que inventaram mais mil histórias absurdas sobre relações entre nós. O diz-que-diz ficou tão grande (mas TÃO grande!) que, um dia, eu simplesmente mandei um “bye bye” via sms pra ele e mudei meu telefone. SÓ TÍNHAMOS ANDADO DE MÃOS DADAS. Uma vez na vida. Tive de deixar aquilo de lado. E não era porque eu tinha perdido a fé em Deus, não. Eu perdi a fé foi nos seres humanos. Tentei continuar lá, na verdade. Tentei continuar me preocupando só com a vontade de Deus, mas o cochicho alheio me incomodava e eu simplesmente entendi que, não importa o quanto eu seja capaz de ignorar as pessoas, sempre vai machucar saber que há várias delas pensando e falando mal de mim logo ao meu lado, enquanto sorriem e me oferecem “palavras de sabedoria”. Seres humanos, somos todos. Cheios de defeitos. Com ou sem Deus. Por isso, sempre disposta a dar ao mundo uma nova chance, tenho me decepcionado todos os dias. Uma hora as coisas provavelmente darão certo.

O que mais me entristece, no fundo, é que eu nunca mais fui a mesma em relação a Deus. Em relação aos meus princípios. Um dia eu disse “CHEGA!” pra todos eles, porque estava crescendo, certinha, sozinha, recatada e triste. Eu e meus princípios, mais ninguém. Nem quem me criticava, nem quem me elogiava, ninguém era fiel às virtudes como eu fazia questão de ser. E hoje, num dos momentos em que fui falar com Deus (é, por mais perdida que eu seja hoje, eu ainda falo com Ele), tive a sensação estranha de que estou fazendo tudo errado. Na verdade, essa sensação tenho tido faz tempo, mas hoje foi ainda mais forte. E eu me senti perdida, porque não sei o que devo fazer.

Sabe o que é pior? Por mais que eu tente voltar a seguir com decência meus tantos princípios, isso não apaga o que fiz esse tempo em que deles fiquei distante. E olha que eu não fiz quase nada de “errado”… Além disso, por mais que eu tente desacreditar de vez nos seres humanos pra evitar mais decepções, isso é impossível. Afinal, o que eu não posso me esquecer (ninguém pode!) é que sou ser humano também. E que, sempre haverá alguém pra me julgar, e esse alguém não será livre de defeitos, assim como eu. Na igreja, fora dela… Em qualquer lugar.

Como é difícil viver, gente. Como é difícil viver. Tomar decisões quando se tem consciência da natureza falsa do ser humano. Como é difícil viver quando já não se sabe mais falar com Deus como antes! Como eu queria ser ainda aquela menininha cheia de fé…

Fumante

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“Porque o cigarro é o meu analista. Ele é um grande e renomado analista. E poderia ser o melhor de todos, se eu ao menos tivesse um analista. Daí eu resolveria o problema. Resolveria tudo. Eu casaria com a nicotina. Eu mataria o meu analista e fugiria com a nicotina para bem longe. Eu seria grande, pleno. Eu abriria mão do jogo, do desenho e das mulheres, só para tragar um cigarrinho. Eu seria gigante. Eu seria a própria nicotina.”

em Quarta tentativa – HOJE É DIA DE NOITE, do Blog dos Malvados, de André Dahmer.

Eu não fumo, mas às vezes eu fico pensando nisso. Nos meus vícios. Em como sou capaz de desejar ser aquilo de que gosto tão rápido que nem vejo. Em como procuro a salvação fora e sempre venho parar aqui, dentro de mim.

O dia em que eu surtei

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Nota: É só mais um surto ridículo de fangirl.

Eu sempre vi milhares de pessoas famosas pela Paulista, de cantor da Fresno, ex-protagonista da malhação e ícones do underground até ator global, passando pela Monique Evans e pelo travesti do Ronaldo. Celebridades e pseudocelebridades que eu olhava, respeitava e tratava de igual pra igual. Porque eu sei que se eu fosse famosa e estivesse na minha, caminhando pela rua, jantando ou alugando um filme nos arredores da minha casa, eu simplesmente não ia gostar de uma louca surtando e pulando em mim.

Ok. Eu sempre odiei fãs loucos e ridículos.

SÓ QUE, não é segredo pra ninguém, eu já fui a fã mais alucinada do mundo. Sim. Passava o dia inteiro lendo, vendo fotos, procurando notícias, assistindo a vídeos, ouvindo a músicas. Eu era uma bitolada e meu mundo era a Pitty. Não havia uma pergunta que você fizesse sobre ela e eu não fosse capaz de responder. Passou (eu pelo menos achei que tivesse passado) quando saí da adolescência. Ficou só minha paixão doentia pelo Martin Mendonça (para os leigos, o cara mais delícia do mundo guitarrista dela). Então, até ontem, eu me considerava absolutamente curada.

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ACONTECEU ASSIM: Estava a caminho da estação Brigadeiro com Clara, Francisco, Tory e Leonardo, como de costume. Rigonatti me ligou, estávamos conversando, alguém falou que precisava ver um DVD e entrou na 2001. Eu fiquei do lado de fora, ao telefone. (Já estava alterada por causa da minha nota no trabalho de Comunicação Comparada que, milagrosamente, veio com um “DEZ! Impecável!” escrito e um “Parabéns!” diretamente dos lábios do professor.)

Quando desliguei e fui entrar, já sozinha, vi um cara absolutamente maravilhoso vindo na minha direção. Na direção da porta, infelizmente na verdade. E aí bateu a sensação de “nossa, conheço esse cara!”. Normal, sinto isso o tempo todo, especialmente depois que comecei a usar o Twitter, há dois anos. Mas olhei pro braço dele e vi um “Tomaz” tatuado. Tudo ficou claro pra mim. E escuro ao mesmo tempo.

 

Martin, Tomaz e a tatuagem que mudou minha vida
Martin, Tomaz e a tatuagem que mudou minha vida

PUTAQUEPARIU, MAN, É O MARTIN MESMO!!!!! Ok. Abrimos a porta ao mesmo tempo, ele acenou com a cabeça num “obrigado” e foi embora. FOI EMBORA. E eu não fiz nada. Imagina, eu? Tímida do jeito que eu sou. Burra do jeito que eu sou…  Entrei, completamente desesperada, com o coração a mil. Fui contar pro pessoal, ninguém me dava bola, ninguém nem sabia quem era Martin. E eu ainda me via obrigada a disfarçar porque, OI?, ninguém que trabalha na locadora precisava ver uma doida surtando por ver o Martin Mendonça.  Desisti de tentar contar pra alguém e fui virar pra ir embora. A bolsa esbarrou numa coluna gigante e DERRUBEI A MALDITA COLUNA. Sem que eu visse. Só escutei uns “Ariane, ariane, arianeeeeeeee” e ploft! Já estava no chão. Quando virei pra olhar a besteira que tinha feito, onde estava a coluna eu vi…

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ELA! A PITTY! LINDA, MARAVILHOSA E BLASÉ COMO EU SEMPRE IMAGINEI. Em volta, algumas pessoas correndo pra levantar o que eu tinha derrubado, óbvio. Mas a Pitty estava lá. Parecia uma bonequinha, vestidinho cor-de-rosa, cabelos presos pra trás. Virei, roxa, pra Clara e falei, lágrimas nos olhos: “Clarinha, a Pitty tá aqui”. A última vez que senti isso foi quando conheci o Sérgio Mallandro e o Bozo, aos quatro anos. Com um desespero que ninguém imagina. E falei “Eu vou embora. Eu preciso ir embora daqui”. Enfim. Eu não vi mais nada. Fiquei surtando várias e várias vezes na minha, em silêncio. E NÃO FUI FALAR COM ELA. Eu li a vida inteira que ela odeia isso. Do jeito que eu estava, corria o risco de tomar uma leve cortadinha. Não queria meu ídolo me achando ridícula. (Se bem que, depois de derrubar uma coluna na locadora, certamente, se ela tivesse de ter alguma opinião sobre mim, seria essa! hahaha). Prefiro que ela continue sem saber da minha existência. 

Pausa. Eu sei que pareço uma menininha de 12 anos contando essa história. Foi como me senti naquela hora também. Gente, como eu chorei. Como eu chorei na rua, como eu chorei quando eu cheguei em casa, como eu chorei hoje de manhã quando ouvi minha mãe e minha irmã me zoando na cozinha sem saber que eu estava acordada e ouvindo. Dói ouvir algumas coisas, por mais que sejam verdade.

Eu chorei. E eu não ligo, porque eu não tive controle sobre nada do que eu senti. Fiquei sem chão como nunca tinha ficado antes. Eu, que tenho contato com gente assim o tempo todo. Eu, que  já havia imaginado a possibilidade de encontrá-la pela Paulista várias vezes, pensado numa situação absolutamente normal. Eu quase morri, de verdade. Mas quem sou eu pra falar em sanidade? Olha a cara que eu tenho tido nos últimos dias!

 

Anotem: isso é tudo que verão sobre meu aniversário nesse blog. TUDO.
Anotem: isso é tudo que verão sobre meu aniversário nesse blog. TUDO.

Podem rir de mim agora, eu não ligo. Eu sei que é ridículo, também vou rir um dia. Por enquanto, eu ainda não acredito. E o não acredito não se refere ao fato de ter visto a Pitty, não. O não acredito aqui é relacionado à minha reação. 

 

Eu não acredito que tô entrando em crise existencial por causa de um dez, um aniversário insano, um pouquinho de álcool, uma queda no vão do metrô e um encontro com meus ídolos.

Preciso de tratamento, urgente.