Princípios

Eu era uma garotinha de muita fé. Nem só em Deus, sabe? Na maior parte do tempo, a minha fé era também nos seres humanos. Aos nove anos, de tanto eu implorar, minha mãe me colocou no colégio da igreja que frequentava desde os sete. Era longe, mudava toda a rota da família, mas eu queria crescer educada por princípios. Os princípios certos, tudo com base na Bíblia, sempre respeitando a vontade de Deus. Que mãe recusaria um pedido assim? E eram esses os meus argumentos pra ela. Enfim, lá estava eu, exatamente onde queria estar. Naquele lugar fiz 5ª, 6ª e metade da 7ª série. Certinha, caretinha, gordinha, nerd como sempre fui. E ainda participava da Turma do Printy – que, poxa!, era a alegria da minha vida na infância. Quando saí de lá, aos onze-quase-doze anos, já desacreditava um pouco; sofri lá mais preconceitos e exigências do que antes, lá, onde se dizia que “todos são iguais perante Deus”. Achei que fizesse parte da adolescência, já que sempre fui, embora muito obediente e muito certinha, uma pessoa com personalidade, digamos, excêntrica. Queria ter o meu cabelo colorido, usar as minhas roupas pretas, meus rebites na mochila, lápis preto no olho, meus piercings. Sempre achei que isso não tinha nada a ver com fé. Com Deus. E lá eu não tinha essa liberdade. Não tinha liberdade nenhuma. Os princípios, já adquiridos, viriam comigo pra onde eu fosse.

A adolescência? Passei quase toda ela na igreja, ainda. Só tinha saído da rigidez inútil do colégio. Virava e mexia, eu me decepcionava um pouco, mas continuava lá. Nunca deixei de lado a fé, não é isso. Eu só tinha (ainda tenho!) minhas razões pra acreditar que Deus era maior que aquilo. Mas fui deixando levar. Aos quinze anos, hormônios a mil, apaixonada por um garoto da igreja – proibida de namorar, porque lá era assim – sofri uma série de ataques indiretos. Pessoas falando mal, fofocas, intrigas, ameaças, líderes vindo em casa “conversar”. Chegou ao ponto de pastor fazer culto falando do caso sem citar os nomes. Não precisava, porque todo mundo já sabia de quem falavam. Igreja pequena é pior que cidade do interior.

Em momento nenhum eu havia fugido aos princípios, que fique bem claro. Disse ao garoto que não queria, que, se ele quisesse, teria de esperar. Eu nunca tinha beijado ninguém. Eu nunca beijei aquele garoto. Tínhamos um acordo. Um esperava o outro. Sentávamos perto, demos as mãos algumas vezes… Mas nunca fizemos nada além disso. Acontece que o que há dentro de uma igreja é exatamente o que há fora: seres humanos. Eu sei disso porque eu sempre fui eu mesma, dentro e fora de lá. Eu, sempre muito rock’n’roll. Todo mundo comentava, todo mundo olhava torto, e eu ria de todo mundo porque, fora de lá, muita gente que me dava lição de moral fazia coisas piores. Pessoas que estudavam comigo. E eu nunca abri a boca pra falar isso pra ninguém. Pois bem: dentro da igreja, aqueles que não têm personalidade suficiente para assumirem seus gostos e vontades criam uma segunda vida, uma vida casta que acaba da porta pra fora. Seres humanos que, com base em princípios bíblicos, utilizam o argumento de “tomar conta do irmão” para poderem fofocar/cuidar da vida do outro sem serem castigados ou se sentirem culpados por isso. (Não estou generalizando – estou dizendo que há pessoas assim, que estão no lugar pelos outros, não por Deus: mas não são muitas, nem são todas.)

Pois bem: O tal do bonitinho, na época com 18 anos, arregou quando sua irmã mais velha caiu na fofoca. Porque eu, desde o começo, contei para os meus pais sobre nosso “relacionamento”. Ele não. Ele era do tipo “santo aqui dentro, pegador lá fora”. Já não era mais o mesmo. “Queria ficar comigo”, mas não me defendia perante a irmãzinha – que achava que eu queria levá-lo para o mau caminho. Sim. Pra irmã dele, eu criei toda a situação. Ela era amiga de garotas apaixonadas por ele, que inventaram mais mil histórias absurdas sobre relações entre nós. O diz-que-diz ficou tão grande (mas TÃO grande!) que, um dia, eu simplesmente mandei um “bye bye” via sms pra ele e mudei meu telefone. SÓ TÍNHAMOS ANDADO DE MÃOS DADAS. Uma vez na vida. Tive de deixar aquilo de lado. E não era porque eu tinha perdido a fé em Deus, não. Eu perdi a fé foi nos seres humanos. Tentei continuar lá, na verdade. Tentei continuar me preocupando só com a vontade de Deus, mas o cochicho alheio me incomodava e eu simplesmente entendi que, não importa o quanto eu seja capaz de ignorar as pessoas, sempre vai machucar saber que há várias delas pensando e falando mal de mim logo ao meu lado, enquanto sorriem e me oferecem “palavras de sabedoria”. Seres humanos, somos todos. Cheios de defeitos. Com ou sem Deus. Por isso, sempre disposta a dar ao mundo uma nova chance, tenho me decepcionado todos os dias. Uma hora as coisas provavelmente darão certo.

O que mais me entristece, no fundo, é que eu nunca mais fui a mesma em relação a Deus. Em relação aos meus princípios. Um dia eu disse “CHEGA!” pra todos eles, porque estava crescendo, certinha, sozinha, recatada e triste. Eu e meus princípios, mais ninguém. Nem quem me criticava, nem quem me elogiava, ninguém era fiel às virtudes como eu fazia questão de ser. E hoje, num dos momentos em que fui falar com Deus (é, por mais perdida que eu seja hoje, eu ainda falo com Ele), tive a sensação estranha de que estou fazendo tudo errado. Na verdade, essa sensação tenho tido faz tempo, mas hoje foi ainda mais forte. E eu me senti perdida, porque não sei o que devo fazer.

Sabe o que é pior? Por mais que eu tente voltar a seguir com decência meus tantos princípios, isso não apaga o que fiz esse tempo em que deles fiquei distante. E olha que eu não fiz quase nada de “errado”… Além disso, por mais que eu tente desacreditar de vez nos seres humanos pra evitar mais decepções, isso é impossível. Afinal, o que eu não posso me esquecer (ninguém pode!) é que sou ser humano também. E que, sempre haverá alguém pra me julgar, e esse alguém não será livre de defeitos, assim como eu. Na igreja, fora dela… Em qualquer lugar.

Como é difícil viver, gente. Como é difícil viver. Tomar decisões quando se tem consciência da natureza falsa do ser humano. Como é difícil viver quando já não se sabe mais falar com Deus como antes! Como eu queria ser ainda aquela menininha cheia de fé…

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