Nos últimos dias…

Nos últimos dias estive perdida. Chamei Thierry de Thiago, Giancarlo de Gianvitor, caí no vão do metrô, entre o trem e a plataforma. Falei absurdos, cedi a suaves paixões, senti atrações incontroláveis, disse “eu te amo” a alguém. Nos últimos dias chorei de saudade, corei em frente ao computador, desejei loucamente um abraço, *aquele* abraço, e esperei pacientemente por um futuro que, eu sabia, não estava por vir.

Nos últimos dias senti mais carinho pelos outros, desejei mais vezes ser amiga e ajudar alguém, saí com mais pessoas, comi, bebi e ri sempre mais do que de costume. Nos últimos dias meu coração entrou num turbilhão que chocava desejo, amor, amizade, paixão – e eu não soube, talvez, expressar ternura, saudades, tesão e amizade como desejava.

Nos últimos dias li demais, fui eu mesma como sempre, só que eu estava intensa como nunca, só isso. Nos últimos dias houve melancolia, carinho, revelações, adeus. Ganhei novos amigos, notei que já tinha alguns a quem não dava o devido valor.

Nos últimos dias reparei que já vivi bastante. Não o bastante, não o suficiente. Apenas mais do que imaginava ter vivido. Percebi que não sou tão ingênua quanto julgava. Que uns tapas na cara quase sempre fazem bem. Gastei dinheiro, chorei mágoas, ri e fiz os outros rirem das minhas alegrias e das minhas desgraças.

Nos últimos dias contemplei a existência humana de maneira engraçada, como se não fizesse parte dela. Sorri para desconhecidos, ignorei o ódio que sinto de minha imagem e me deixei ver e ser vista. Coloquei ideias em execução, controlei a libido que me parecia mais à flor da pele do que nunca, descobri que ainda não encontrei o amor da minha vida – que talvez nunca encontre – e socorri uma amiga acidentada.

Nos últimos dias me peguei erroneamente a uma obsessão pela dignidade. Bobagem minha: constatei que quanto mais situações indignas eu vivo, mais posso dizer que fui feliz. Esse negócio de dignidade não é pra mim, não, é para os outros. E eu cansei de fazer coisas pra quem não me liga a mínima.

Nos últimos dias senti ciúme como se fosse a primeira vez. Dei vexame, falei besteira, passei da conta. Vivi excessos, um inferno astral e tpm constante. Pensei em desistir. Forcei-me a continuar. Tomei nem sei quantos pitos da vida. “Olá, amiga, isso aqui é a relaidade!”. Mas minha realidade nem por isso deixou de ser completamente semelhante à ficção, à literatura e ao cinema, os mais piegas que você puder imaginar.

Nos últimos dias deixei meus dezoito anos para trás como que projetando-os para um futuro nãotão distante. Nos últimos dias, caros amigos, eu vivi. Melhor, percebi que estava viva. E vi que isso, apesar das constantes mágoas e sequelas, era bom.

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