Encontro

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Ela volta do jantar solitário, cabeça nas nuvens, pasta sanfonada na mão, coquezinho-secretária, óculos embaçados pelo rímel recém-passado. Malditos cílios gigantes que sempre esbarram nas lentes… Não é um de seus melhores dias. Confusão mental, a sempre triste confusão mental.

Caminha olhando para cima, sempre. Não por arrogância ou esperança, mas porque, inexplicavelmente, há algum tempo já não há o que lhe fascine mais que o céu. Especialmente o céu logo acima da torre da Gazeta, sua torre, pedacinho da sua vida. De repente, uma voz a tira do transe.

– Olá, você vai atravessar a avenida?
A velhinha sorri afetuosamente.

– Vou sim.
A resposta vem ainda com algum receio. Não gosta de contato com estranhos. Tem dificuldade pra conversar até com conhecidos…

– Me ajuda a atravessar? Fico tão receosa…
A doçura da senhora a conquista. Faz que sim com a cabeça e volta os olhos para o farol.

– Você trabalha por aqui?
– Estudo na Gazeta
– Cursinho?
– Não, Jornalismo…
– Jornalismo… É uma bela profissão para as mulheres. Em que ano está?
– Segundo.
– E como é o campo?
A pergunta do campo. Do mercado de trabalho. Sempre a pergunta do mercado de trabalho. Responde qualquer coisa, deseja não ter parado ali. Odeia falar sobre área de trabalho, campo, especialização… Todos sempre lhe torcem o nariz ao ouvir suas opiniões e opções.
O sinal abre. Coloca a mão nas costas da velhinha e atravessam, enquanto, cachinhos brancos ao vento, vestido floral, a idosa continua:

– A filha do meu irmão fez jornalismo. Trabalha naquela revista… como é… Valor, conhece?
– Economia?
– Isso, isso! Trabalhava na Gazeta Mercantil, mas recebeu uma proposta mais lucrativa, sabe como é, dinheiro a mais é sempre bom… Ela adora economia. Você… Tem alguma área de interesse em especial?
– Tecnologia.

Chegaram ao outro lado da Avenida. Paradas em frente ao Top Center, as duas se entreolham.

– Você tem mesmo cara de quem gosta de tecnologia, como não pensei nisso? Sério…
– Obrigada…

A dona da cabecinha branca olha para os lados como quem não sabe para onde vai. A idade tem dessas coisas. Por um instante, fica com as mãos no queixo. Solta de repente e puxa a garota, que recebe um afetuoso beijo no rosto.

– Sucesso, menina! Sucesso! Você merece muuuuito sucesso! Obrigada, obrigada mesmo!

Ainda assustada com a estranha alegria advinda apenas de alguns segundos de atenção, sorri. Agradece. A confusão já não está mais dominando sua mente. Só consegue se sentir contagiada pela felicidade e pelo carinho da terna desconhecida.

– Mulheres! Mulheres! Sucesso, hein?, ainda gritava a senhora, parada entre a banca de jornal e o ponto e ônibus.

A garota continua seu caminho, passando pelo escadão, até chegar à Faculdade Cásper Líbero. Ah, a Cásper… Sorri para o segurança, cumprimenta o bedel com quem dividiu a viagem elevador e, como se fosse outra pessoa, passa o fim de sua segunda-feira esperando o melhor – não dos outros, mas de si mesma.

Senta em frente ao seu computador para fazer um trabalho, para, de sopetão, por um instante e, de repente, passa-lhe uma ideia louca pela cabeça. Ah, tolinha. Esqueceu de perguntar o nome daquela que por muito tempo ainda irá figurar em seu pensamento lembrando-a de sorrir pra vida…

Quem a vê assim já não sabe mais dizer quem ajudou quem.
Mas qualquer um apostaria que quem mais ganhou nisso tudo foi ela, que, perto de seus vinte anos de idade, andava sofrendo sem porquê.

Foto por Raphael Strada.

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