Café, amor e figurinhas

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O gosto acre na boca grita socorro enquanto, lá na frente, uma voz fala sobre a história de Portugal e suas “dinastias monárquicas” num ritmo à la novela das oito. Nada me toca, apenas o café amargo que tomei antes de vir. Sinto-o, feito ácido, corroendo cada milímetro do meu estômago vazio. Súbita vontade de um cigarro. Balanço a cabeça com ar de reprovação. Inútil. Balançar a cabeça para mim mesma?
Passeio os olhos pelas árvores ao redor, amaldiçoo a preguiça que me impediu de ir ao Circuito Fellini no final de semana, rio da minha infantilidade ao tratar com quem amo, e, só mais uma vez, volto àquela censura que me lembra que meu sonho sempre foi encontrar a pessoa só pra mim – encontrar de primeira, não como se faz hoje – essa espécie estranha de tentativa e erro, como se a vida fosse um álbum de figurinhas e o amor fosse a rara figurinha metálica que, às vezes, duvidamos até mesmo que exista para todos, tamanha a dificuldade de se encontrar. Não! Não quero colecionar nada. Meu pequeno histórico já é trágico o suficiente. Uma figura me basta para preencher, se não um álbum, pelo menos um pouco do vazio dessa minha existência sem amor.
Definitivamente, não quero a vida como um álbum de figurinhas. Porque eu quero a mesma sempre, e figurinha repetida não completa álbum. Eu quero um amor tranquilo, um amor longo e verdadeiro desses que hoje só se ouve falar no cinema, na televisão, na literatura ou pela boca de uma senhora viúva que senta-se todos os dias à porta de sua casa e observa o movimento da rua enquanto, em sua solidão conformada, espera a hora de juntar-se ao seu amado.
Quero um amor feito o dos meus pais, cúmplice, amigo, alguém para passar os bons e maus dias comigo. Quero alguém sem a ambição do eterno, mas sem medo dele também. Um amor que arrisque, sem dúvida, que se atire como eu me atirei e me atirarei sempre que o sentimento assim me pedir.
O estômago reclama novamente, a história de Portugal parece ter avançado significativamente no tempo, a ideia de ver Fellini me passa, de novo, pela cabeça. Abaixo os olhos cedendo a uma leve tontura. Nunca dei sorte com o amor. Não deveria ter bebido aquela dose. Jamais deixarei de me orgulhar do que fiz por nós dois. Seja lá quem for o outro do ‘nós’, a paixão tira o raciocíno lógico da gente. Será que tem um Engov na bolsa? Uma Neosaldina? Acho que ele nunca mais vai falar comigo. E que diferença isso faz? Ele não queria o mesmo que eu. Ele não queria nada. Só me usou o quanto pôde. Não sou tão desprezível assim só por ter perguntado algo que não lhe parece muito educado. Cigarro, cigarro, cigarro! Quatro meses de angústia. O amor é mais nocivo que qualquer câncer, ora. E ele eu, além de não conseguir evitar, consumo sempre excessivamente.
Desisto. Não dá pra ficar mais nesse canto sentindo meu estômago ser derretido pelo café e meu coração ser devastado pelas lembranças. Arrumo as coisas, saio da sala e me prometo em pensamento (eu também sei me iludir muito bem!) que amanhã estará tudo lindo, tudo certo, cada coisa em seu lugar. Até um novo amor vir e bagunçar tudo outra vez.

O pior de tudo? Ainda não são nem nove da manhã.

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