Adoecendo

Ficar doente não é de todo mal. À parte dores, delírios, à parte a febre e o mal estar, os enjoos e o excesso de sono… É quando se está doente que acontecem algumas das cenas mais raras que podem haver na vida quando já não se é mais um bebê.

Quando é que, por exemplo, você vai acordar com sua mãezinha ao pé da cama, falando baixinho, oferecendo-lhe um mingau feito na hora? Diga-me, quando vai poder assistir Lisbela e o Prisioneiro em plena terça-feira à tarde? É comum seus pais chegarem em casa cheios de livros novos pra lhe dar de presente de um dia para o outro? (Livros são o meu presente favorito, tomem nota.) Pois bem, tudo isso magicamente acontece quando você está doente. E você também pode pedir colo sem parecer um lunático depressivo, pode passar a manhã no Facebook brigando para ter alguém pra você no Friends for Sale, pode ler exaustivamente, pode escrever sem ninguém te atrapalhando, porque a casa fica vazia e o silêncio vira seu aliado!

É claro que é um pouco decepcionante quando você chega à conclusão de que: o mingau oferecido era apenas uma forma de lhe dar algo que parasse em seu estômago, ver filme romântico numa terça-feira à tarde causa saudade e melancolia irreversíveis, os livros eram somente para que você não notasse que vai (ou não se sentisse tão mal por) ter que ficar em casa, na cama, o dia todo, sozinha, enquanto os saudáveis trabalham, estudam ou se divertem por aí. É claro. Mas a ideia de pedir colo e ganhar sem hesitação ainda me acalenta, e, de mais a mais… Se é pra ficar doente, por que não fazer de conta que todos os benefícios são naturais?

Além disso, você percebe o quanto é inútil gastar tempo brincando em apps do Facebook (e que sim, sempre teve razão quando dizia isso por aí!), e como é possível ler e escrever muito mesmo quando a vida está numa correria louca. Você passa a dar mais valor àquelas pessoas que cuidaram de você. Àquelas que mandaram mensagens. Você descobre quem te ama de verdade. E ainda, no meio de um bode imenso (“você está curtindo demais essa depressão”, disse sua mãe antes de sair), você se dá conta de como a pessoa que você pensa amar nunca quis nada a não ser usar você. E isso, pela primeira vez em muito tempo, te faz bem.

É, adoecer não é de todo ruim. Não, porque quando você melhora, volta à ativa com muito mais dentro de si do que se pode prever. Sim, vontade de viver é algo muito mais amplo do que qualquer conceito que eu possa usar aqui.

Um comentário em “Adoecendo”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *