Lisbela

De novo o sinal. De novo o “Próxima Estação: Vila Mariana”. Eu já reparei que aquele turbilhão de pensamentos que começa a me incomodar quando estou com ele resolve se organizar quando eu chego na estação Santa Cruz.

É sempre a mesma coisa. Sempre a mesma vontade de entender o que não dá pra descrever. E o pior é que me divirto com isso.

Às vezes eu acho engraçado, sabe? Eu não acho normal ficar fazendo perguntas pra ele na hora em que estamos… cheios de carinho. Mas, ao mesmo tempo, eu não consigo segurar algumas. Sinto-me uma menina boba, ingênua. Às vezes sinto que estou fazendo papel de idiota. Mas não consigo não fazer. Não consigo deixar, não consigo não parar pra pensar no que tá rolando. É difícil.

Às vezes eu me sinto uma criança. É. Eu, que na maior parte do tempo fico filosofando e criando teorias, de repente só me vejo capaz de fazer perguntas. E perguntas tolas, perguntas inocentes, infantis. Coisa que ninguém, jamais, perguntaria literalmente a alguém, sabe? E eu pergunto! Eu solto as minhas dúvidas como se as pessoas fossem obrigadas a saber respondê-las. É um impasse: ou fico calada e parece que estou sendo, sei lá, debochada, desdenhosa, ou pergunto e fico parecendo uma criança. Ultimamente tenho preferido parecer a criança. Tenho fugido de me esconder. Sempre fui assim, aliás. Não sei porque nos últimos tempos tive tanto medo de me mostrar. Talvez fosse medo de perdê-lo. Mas eu não vou perder. Eu sinto isso.

Sinto que na verdade nem o tenho pra mim. Na verdade eu não tenho o homem em si, tenho os momentos que passo com ele. É isso. Isso é tudo, tudo que me pertence. E isso nunca ninguém vai tirar de mim. Nunca. Ele vai, mas os momentos continuarão sendo meus.

“No dia em que alguém me disser o que temos, dou um troféu a ele”
“Isso te tortura, né?’
“Muito”
(olhares, mimimis e carinhos)
“Eu só me pergunto: É bom ou não? Se é bom, aí eu não ligo”
“Eu não. Se é bom é que eu me preocupo. Eu sou egoísta. Se acho bom, quero prolongar o quanto puder… E nunca, nunca o que é bom dura muito pra mim…”
“Aaaaaaaaaaaah, como ela é otimista… otimista, otimista.”
“Eu nunca disse que era otimista.”

Acho que estou aprendendo a lidar com essa situação. Com essa entrega incompleta. Como se houvesse um elástico, não sei. É, um elástico preso num ponto fixo, no centro da minha vida. E quando eu vou muito longe, ele me puxa de volta ao meu lugar.

A minha felicidade não é ele, não pode ser ele. É sim feita dos  momentos que tenho com ele – porque isso eu posso ter com outras pessoas, eventualmente. Bom, eu sei que nada dura pra sempre com ninguém. Queria parar de pensar no amanhã, sabe? Pelo menos por um segundo… Conseguir pensar só no agora, curtir só o que tá acontecendo. Queria só ser feliz, mas eu não sei. Eu não sei ser assim.  Desde pequena, o futuro sempre me fascinou muito. Eu só espero não perder meu presente pensando no que vai acontecer depois . (por ficar olhando demais pra frente.)  Ahhhh…

Eu devia ter mais dificuldade pra dizer “Eu te amo”. É. Por que dizer “eu te amo”? Acho que isso é uma coisa que eu posso guardar pra mim. A menos que eu goste de ficar com cara de boba, quando digo “eu te amo” e ele só sorri e destrava a porta do carro para que eu vá embora logo. Sempre há horários, compromissos, sempre há alguma coisa entre nós. E quer saber a verdade? É melhor assim. Essa é a primeira pessoa de quem eu não enjoei após um dia junto. Vai ver é isso. Vai ver é isso que me fascina nele: o fato dele saber “não estar nem aí” nas horas certas. Porque quando as pessoas realmente estão completamente na minha, a única coisa que sei fazer é olhar pra elas e dizer “Tchau, tchau, não é isso que eu quero”. Pode ser. Pode não ser. Quem liga?

Cara, devia ser proibido ficar viajando depois de um tempão maravilhoso com alguém que amamos, sabe? Devia ser proibido pensar! Sei lá, é engraçado. De repente eu me vejo sem conseguir completar um raciocínio, eu penso numa coisa – e ai já vem outra, e outra, e outra… e eu não consigo parar, e ao mesmo tempo eu não posso parar.É muito estranho. Mas eu não trocaria estar com ele por nada no mundo.

Seria piração se eu dissesse que tudo que eu queria agora era deitar a cabeça no colchão – assim, no colchão mesmo, sem travesseiro – ficar totalmente estirada e dormir? Dormir e sonhar com tudo que aconteceu, porque eu preciso que isso se refaça na minha cabeça – eu ainda não consigo acreditar. Eu não sei, eu me perdi, sabe? Num dos momentos com ele. Em alguma hora ali, eu me perdi. E eu não consigo me recompôr. Não consigo. Tudo o que eu queria era que isso passasse logo. E que não passasse nunca.

Nossa Língua Portuguesa, que eu tanto prezo, vai me perdoar dessa vez. Isso é a transcrição fiel de uma piração que tive no metrô hoje, no caminho de volta pra casa. Não estou em condições de decidir se deve permanecer aqui ou não. O fato de eu ter gravado isso em público deixa claro que não estou em estado normal. Só me dei conta agora. Então eu vou. E depois eu volto. Ou não. Sempre tem essa opção.

2 comentários em “Lisbela”

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