Final

Não era normal e nem podia ser. Não estava preparada para uma despedida, por mais que soubesse que aconteceria. Aquele sonho – pesadelo, que seja! – tinha sido real demais. Real a ponto de fazê-la sentir-se culpada ao pensar nele. Real a ponto de confundí-la. E aí houve uma hora em que ela já não sabia dizer se tinha sido sonho ou não.

 

Talvez fosse tarde demais. Talvez todo aquele amor que ele insistiu tanto ter tivesse expirado por cansaço. Ou não, talvez tivesse sido uma artimanha, uma arma de conquista. Vale tudo. Ela, claro, não excluía a possibilidade de estar exagerando, de que tudo fosse apenas paranóia sua. Pelo contrário, adoraria acreditar nisso. Isso excluiria a possibilidade de um final a essa altura – o final é inevitável, mas sempre adiável.

 

 Viu-se mais uma vez naquele cenário que tanto a incomodava: as primas cuidando de seus bebês, a irmã num eterno duelo com os tios por vestir uma camisa do Corinthians no almoço de Natal, numa casa onde só há sãopaulinos, as mulheres conversando na cozinha. Ela em seu mundo à parte, sempre em seu Fantástico Mundo.Por sinal nada fantástico, já que não conseguia escapar à realidade cruel: estava presa ali com a família, deslocada, com o celular na bolsa, sem a mínima esperança de que ele tocasse. Dessa vez, sem nenhuma esperança mesmo. 

 

Na noite anterior, furou seu pacto consigo mesma e enviou mensagens. Várias. Descontroladamente. Está apaixonada, fica difícil segurar. Sua esperança era que as mensagens a salvassem da solidão e da tristeza, mas, embora confesse que muitas fizeram-na sorrir, ela deu valor mesmo àquelas que vieram com desdém. Onde foi que eu errei? Não tinha nenhuma outra pergunta, estava infeliz o suficiente com essa.

 

Enquanto a família enfastiava-se de pernil, tender, lombo, frango, sorvete, panetone, vinho, refrigerante, farofas e frutas, ela fazia um balanço de suas atitudes – mas não conseguia enxergar o seu erro, já que nunca tinha passado por essa situação antes. 

 

Talvez tivesse errado desde o começo.

 

Talvez tivesse cedido rápido demais. Nunca quis ninguém, e, de repente, queria-o loucamente. Desprezou-o por tanto tempo antes de finalmente enxergar-se apaixonada – perdera o encanto para ele.

Talvez ele tivesse desencantado. É um grande risco quando esperamos demais por alguém – e ele esperara demais por ela. Pode não ter sido uma espera solitária ou dolorosa, mas foi uma espera.

Talvez tivesse se mostrado infantil demais. Ela é. Talvez não correspondesse às expectativas dele. Ele era tão inteligente, ela tão boba.

Talvez o tenha sufocado, talvez não tenha sido bom. 

 

Talvez ela nunca soubesse o que aconteceu para que não desse certo com ele.

Ou o porquê de nunca dar certo com ninguém.

 

E era isso que mais angustiava naquela tarde cinzenta e quente.

 

Não era normal e nem podia ser. Não estava preparada para uma despedida, por mais que soubesse que aconteceria. Aquele sonho – pesadelo, que seja! – tinha sido real demais. Real a ponto de fazê-la sentir-se culpada ao pensar nele. Real a ponto de confundí-la. E aí houve uma hora em que ela já não sabia dizer se tinha sido sonho ou não. Pensou em telefonar, dizer que não queria mais vê-lo, que nada estava dando certo. “Cadê a Ariane?”, ouviu. Finalmente alguém notou sua falta. “Ah, olhe ali! Sentada na beira da piscina! Ari! Vem cá, querida, a melancia está um mel!”. Resignou-se. Colocou um sorriso plástico no rosto – É Natal – e voltou para o meio de todos, como se não tivesse pensado em nada disso. O final é inevitável, mas sempre adiável. Adiou-o mais uma vez.

3 comentários em “Final”

  1. Li um texto passado (Roda Viva): sempre estarei aqui pra te ajudar a sorrir quando vc quiser!
    Li um texto mais novo (Pagode): céus, pq alguém cria um teste desses?! hasushauhsas…
    Li este texto que comento: Ari, as vezes a vida tem cada coisa que a gente não quer enchergar/fazer de fato, não é? coisas que adiamos, seja o que for. mas as vezes, pensa bem, as vezes a gente vê um problema que nem existe ou que tem mais soluções do que imaginamos. Deixa o tempo cuidar de tudo, ele é uma ótima babá de nós.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *