Sobre Heloísas, Bentinhos e Tweets desesperados

“A imaginação foi a companheira de toda a existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo.”

Dom Casmurro, Capítulo XL

Daí que, assistindo Capitu, passou pela minha cabeça de novo algo que sempre passa quando leio Machado de Assis. É, eu não sou tão Heloísa quanto espalho por aí. Quer dizer, já matei um ou outro por ciúme e tenho em minha lista mais umas duas ou três que não escaparão, mas, ah, isso é tão normal. Posso até ser, na verdade, não sei. Mas o fato é que, ciumento por ciumento, eu estou muito mais para Bentinho.

Queria ser Capitu. Com os olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Sim, aqueles olhos de ressaca. Aquele poder de mexer com um homem, de enlouquecê-lo, de fazê-lo servo. Mas eu sou Bentinho. O que consigo mesmo é me entregar, de repente. De repente, porque a situação sempre está ali por um bom tempo antes que eu a note de verdade. E aí, depois da entrega, resta criar em minha cabeça situações que podem ou não existir. Fantasiar o tempo inteiro que não sou boa o suficiente (e o que é ser boa o suficiente?), que alguém melhor vai levar o que é meu embora. E me corroer, sangrar, morrer por dentro. Sem fazer mal a ninguém, a não ser a mim mesma.

Mas nem todo mundo é assim. Minha irmã, hoje mesmo, mostrou que é muito diferente de mim. E foi dela que tirei a maior lição do dia. “Ele já disse ‘eu te amo‘ alguma vez?”, perguntou-me enquanto almoçávamos. “Sim. Quer dizer, isso foi antes de ficarmos, mas…” – nem me deixou terminar. “Se ele disse ‘eu te amo‘, acredite. Você só precisa acreditar. Não ficar inventando milhares de possibilidades ridículas dentro da sua cabeça e enchendo o saco dele” (Ela ainda complementou com um “e nem adianta me olhar com essa cara de cachorro morto, é isso e ponto!”). Tudo bem, foi um tremendo desabafo (ela tem um namorado tão Bentinho quanto eu), mas não deixa de ter razão. O grande problema é que eu não tenho controle sobre isso (a ponto de minha irmã de 12 13 anos estar me dando conselhos maduros enquanto eu, aos dezoito, às vezes choro pelos cantos por me sentir mal amada).

Não consigo não imaginar coisas, nem deixar de acreditar cegamente em cada uma delas. Não consigo parar de encontrar evidências e torná-las cada vez mais reais. É, sou convincente. Não venço meus argumentos, nunca. E aí, o que eu faço? Eu corro pro Twitter. Pro lugar mais errado possível. E eu despejo tudo lá. Minhas mágoas. Minhas obssessões. Se estou vidrada, se estou bêbada, se estou infeliz, se estou amargurada, se não sinto nada… Não importa. Eu sou realmente uma personagem. Meu livro está escrito em parágrafos de até 140 caracteres, pra qualquer um que peça permissão para me seguir. Pois é, pois é, pois é. Perdi a noção do perigo, deturpei o uso de uma ferramenta interessante e, ainda assim, sou eu, no final, a vítima da tragédia. Sei que não sou a única a fazer esse tipo de coisas, mas dói por dentro, vez por outra, quando ouço algum comentário ou crítica fervorosa a usuários compulsivos como eu. (Mentira, não me dói nada. Se não gosta de ler meus posts, não me siga – simples assim!).

“Ora, há só um modo de escrever a própria essência, é contá-la toda, o bem e o mal.”

Capítulo LXVIII

No fundo, acho que seria menos feio ser Heloísa. Extravasar, gritar, esfaquear, correr atrás, enlouquecer. É, certamente. Mas eu só sei ser assim, quietinha. Cada descoberta (ou criação?) é uma nova punhalada que dou em mim mesma. Cada vez que encontro uma pista, meto-me mais pra dentro de mim. E eu não consigo (ou não quero, quem sabe?) mudar. Eu só sei ser assim, não sei dissimular nem esconder o que penso. Não tenho porque viver de meias verdades, ou dizer somente o que os outros querem ouvir.

Eu sou insuperavelmente piegas, possessiva, ciumenta, carinhosa e entregue. Mas não sou nada ingênua. Não sempre. A única coisa que me dá medo, de verdade, é essa minha mania Bentinho de me prender à minha versão da história. Sim, porque eu sinto que isso vai acabar me fazendo morrer sozinha. Não que eu tenha medo da solidão, não é isso. É só que eu acho-a desnecessária. (E que eu sonho ter alguém que, numa noite de frio, saia de debaixo do edredom, levante-se e calce em mim mais um par de meias, pra depois voltar pro quentinho da nossa cama e dormir abraçado comigo, trocando cheirinhos e um calor sem fim).

Mas o fim… Quem sabe do fim? Eu vou continuar escrevendo minha vida até o dia em que sentir que devo parar – ou até que a vida pare por mim. Bentinho ou  Heloísa, uma coisa é certa: eu me permito sentir, sem medo. E isso nem todo mundo consegue.

“Tudo acaba, leitor; é um velho truísmo, a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura muito tempo. Esta segunda parte não acha crentes fáceis, ao contrário, a idéia de que um castelo de vento dura mais que o mesmo vento de que é feito, dificilmente se despegará da cabeça, e é bom que seja assim, para que se não perca o costume daquelas construções quase eternas.”

Capítulo CXVIII

4 comentários em “Sobre Heloísas, Bentinhos e Tweets desesperados”

  1. Se livrar do “Bentinho” que vive, algumas vezes adormecido, outras não, dentro de nós é uma verdadeira atividade que nos consome dia a dia. Mas todo esse lance do Casmurro dá uma lição legal, Machado era, acredite, mto inteligente. Bohhh!! HUEheuheUe.

    Oq me intriga é que o Bentinho é o Pedrinho do Sitio do Picapau amarelo kkkkkk. Belos posts o/

    Fui.

  2. Vc parece gostar de ser o que vc é. Então pronto, é isso, acabou, simplesmente seja! As coisa são simples assim. E não tenha medo do futuro, que muita agua vai rolar e as coisas vão mudar. Mas acho bonito (e meio louco, e daí?) o seu jeito de ser.

    Bjs!!!!

  3. A gente tem quase o mesmo sonho. Também sou piegas. Deveras piegas.
    E sonho com o dia em que eu possa cuidar de alguém, com o dia que eu acorde com sono porque fiquei velando o sono de alguém ao meu lado.

    Tenho paixão por coisas bobas: ver quem gosto dormindo é uma delas.
    E minha cara, todo mundo tem um lado Bentinho. Continuar sendo assim é uma decisão sua.

    bjo
    (te adoro)

    p.s.: muito.

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