Assassinato em Buenos Aires

Eu estava dormindo, feliz e contente, quando ouvi barulho e agitação em casa. Foi o tempo de abrir o olho e ouvir minha não dizer: “O Senhor recolheu a Dona Edna”.

Dona Edna, para quem não sabe, é a vizinha da casa ao lado, o 11A. A família dela é a única com que a minha tem contato aqui na rua, porque somos anti-sociais reservados, e acaba que temos um carinho muito grande por ela e por seu marido, Firmino. Nos últimos dias, andou tendo uma apendicite muito forte e foi submetida à uma cirurgia de alto risco – alto devido à idade dela, que, se já tem 50 anos de casada, não está mais na fase mais áurea de seus anos. Enfim, a D. Edna estava internada e meu pai não recebia notícias dela há alguns dias.

Levantei e fui ver o que estava acontecendo. Minha mãe estava chorando, desconsolada. Várias vezes ficou mal. (Ela sempre fica muito abalada com a morte de pessoas próximas. É um tal de refletir sobre o valor da vida, relembrar momentos, sofrer, sofrer, sofrer, “nós não somos nada, filha!”, … ). Então ela me disse que estava na feira e uma outra vizinha (que por sinal mal conversa conosco) a abordou e: “Não sei nem como te dizer, menina…”, enrolou ela. Enfim. Já havíamos almoçado o arroz sem sal da minha mãe, e ela escovava os dentes pra disfarçar o choro, pois dissemos pra ela parar – “Mas o enterro já deve ter passado, deve ter sido no interior! Como será que o seu Firmino vai se virar agora? Como eu vou fazer pra ajudá-los, não tenho tempo, que triste… Que triste… Ai, a vida…” – quando a campainha tocou. Ela foi atender. A vizinha da feira. Na maior cara de pau, soltou apenas uma frase: “Não morreu não, viu? Foi só um engano. Agora deixa eu ir ali avisar a Tininha que eu já tinha contado pra ela também…”.

Minha irmã voltou pra dentro estupefata. Não sabiámos se era pra rir ou chorar. No fim das contas, mamãe ficou feliz porque Dona Edna estava viva. Mas só eu sei o quanto eu achei que ela, em seu profundo estado de choque, fosse infartar. Pois é, pois é. Assassinaram e enterraram minha vizinha antes da hora: pior – quase que levaram minha mãe junto. Porque ela, se tivesse tido um ataque, não ia voltar não…

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