sonho em minúsculas

ou “a minúscula vida de ariane

e daí ele estava aqui pertinho e eu ele estávamos aconchegadinhos, mas ele não era mais o mesmo. nós e o pôr-do-sol. não adiantava perguntar o que aconteceu, ou o que ele tinha. era uma frieza daquelas contestáveis, aquelas que gelam você e depois dão carinho pra não te deixar suspeitas. e de repente apareceu outra menina, e outra, e mais outra, e de repente ele me dizia que eu tinha vacilado, que não aroveitei minha chance, que não era mais especial, que o havia ensinado que amar não vale a pena. e ele não amava mais. e elas eram pra ele tanto quanto eu, ou até mais: com elas ele conseguia se divertir e sentir prazer sem ter que ter lembranças no meio do caminho. comigo era mais difícil. comigo? não ia ter mais comigo. que eu era passado, e ele não queria mais me ver nem pintada. ele era demais pra mim e eu sabia disso. eu era uma boba que se apaixonou e acabou ficando chata demais, ciumenta demais. agora não havia mais distância física, mas os corações estavam mais separados que nunca. tipo uma conspiração. e a culpa era só minha. da minha ingenuidade. eu eu chorava, enquanto ele ia embora com outras, rindo de mim. era hora de ficar sozinha, coisa a que sempre estive acostumada, mas que dessa vez parecia horrível. eu estava realmente sozinha, solidão daquela que dói, solidão de quem sabe que em momento nenhum aparecerá companhia. e eu chorava, mas as lágrimas secaram. e eu quis gritar, mas a voz não saiu. e aí foi engraçado, porque eu estava morta: estava morta, mas podia enxergar o mundo fora de mim. e, mesmo morta, continuei sozinha. e o mundo de fora não sentiu a mínima falta. eu fiquei lá, estirada na minha cama, dias, meses, anos. e ninguém apareceu, telefone não tocou, campainha não foi apertada. os únicos papéis que o carteiro passou por baixo da porta eram contas e propagandas que se acumulavam enquanto ninguém podia pegá-los. e eu estava fora do meu corpo, e podia me ver ali, mortinha, gelada, molenga. e gritava comigo mesma, chorava, implorava. mas nem eu mesma me ouvia. então eu desisti. deitei por cima de meu corpo. desaparecemos. com a certeza de que não faríamos falta nenhuma. só mais uma no mundo, eu era só mais uma no mundo. assim como ele me falou minutos antes de sair com outras, minutos antes de me trocar pra sempre. de me deixar ali, indefesa, frágil, ferida exposta. depois de ter pego meu coração em suas mãos.

e ficamos ali. eu, meu corpo morto e meu coração cinzento, parado, descartado num canto da sala. ‘e vivemos felizes para sempre’. não fadados ao esquecimento, mas esquecidos de verdade. até apodrecer, até os vermes, larvas, insetos e a podridão nos engolirem e deixarem só uma carcaça óssea que, talvez, algum dia, incitasse dúvida em alguém que a encontrasse lá (algum dia alguém tinha de me encontrar lá!): “quem terá sido essa?” “-ah, só mais uma…”. porque o que dói muito em alguém pode não doer nada em outra pessoa. a minha dor é minha, e não dos outros.

porque somos sempre um minúsculo insetinho num mundão gigante, e a morte de uma abelha não acaba com uma colméia.

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