Boa noite

(No escuro do meu quarto, lá pelas 23h30)

Ela entrou devagarinho. Deu um beijinho na testa da Tainá e um na minha, achando que eu estivesse dormindo. Pedi que ela sentasse na pontinha da minha cama. Que me fizesse um pouco de carinho. Sentia que ia ser difícil ter um momento desse de novo nos próximos meses.

– Você está tão linda, filha. (Aquela voz terna que só as mães têm)

– Não sei aonde…

– Você tem que parar com isso. Quem foi que disse que não?

– O espelho.

– Ah, Ariane, preste atenção, filha… Pare de se apegar a esses referenciais tão comerciais! Esse padrão que o mundo vende como perfeito não existe !

– Existe. E nada muda minha opinião. Eu não sou linda. Não estou. Mas eu te amo.

– Carpe Diem, querida! Nada nunca será suficiente. Nunca estaremos satisfeitos. Sempre haverá algo que queremos mudar. Seja feliz. Aproveite enquanto pode. A gente nem vê o tempo passar… Você não pode esperar as coisas acontecerem para ser feliz. Não pode decidir que vai ser feliz “assim que tiver a carta”, “quando arrumar um namorado”, “depois de emagrecer X kg”. Seja feliz agora, você tem tudo que quer, sempre. Sempre consegue, com o mínimo esforço, tudo que sonha. É inteligente, pena que tão ingênua… Eu te amo.

– Te amo, mãe. Mais que tudo. E não vivo sem você. Vai ser tão difícil recomeçar…

– Te amo. Boa noite. Força, filha.

(Se ela tem tanta força, há tantos anos, por que eu – um pedaço dela – não teria?)

Só lamento voltar àquela vida ingrata de vê-la apenas aos finais de semana , ou de madrugada (no ir e chegar da faculdade, quando ela ainda –ou já – está dormindo um sono leve e cansado de quem trabalha demais).

E agora, oficialmente, acabaram-se minhas tão adoradas férias.

fotografia: Eu, Mãe, Tainá e uma senhora. Embu das Artes, 1996.

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