Constatação

Tudo o que eu não gostaria de sentir agora: paixão e carência.

Interessante como é exatamente o que estou sentindo agora.

E Cásper Líbero – solitária – é tudo o que tenho.

Olha a minha cara de…

Quarta-feira à noite, de bode numa redação. Daí meu companheiro Ferrari vem, pega a minha câmera e …

“Olha só a minha cara de…preocupado.jpgpreocupado.jpg

… preocupado com seu draminha

… peninha de você”

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… ah é?”

Afeição é algo estranho, né? De repente, eu me vejo sentindo falta desse bananão aí. Preciso começar a escolher melhor meus amigos… Hahaha.

Dá broncas no bar em plena sexta à noite, sempre arranja um jeito de me alfinetar, tira foto minha suada, de cabelo duro, na correria, despenteada e nervosa, e, mesmo assim, não consigo deixar de lembrar com carinho.

“Você é uma garota grande agora”

Bob Dylan falou comigo essa noite.

Our conversation was short and sweet
It nearly swept me off-a my feet.
And I’m back in the rain, oh, oh,
And you are on dry land.
You made it there somehow
You’re a big girl now.

Bird on the horizon, sittin’ on a fence,
He’s singin’ his song for me at his own expense.
And I’m just like that bird, oh, oh,
Singin’ just for you.
I hope that you can hear,
Hear me singin’ through these tears.

Time is a jet plane, it moves too fast
Oh, but what a shame if all we’ve shared can’t last.
I can change, I swear, oh, oh,
See what you can do.
I can make it through,
You can make it too.

Love is so simple, to quote a phrase,
You’ve known it all the time, I’m learnin’ it these days.
Oh, I know where I can find you, oh, oh,
In somebody’s room.
It’s a price I have to pay
You’re a big girl all the way.

A change in the weather is known to be extreme
But what’s the sense of changing horses in midstream?
I’m going out of my mind, oh, oh,
With a pain that stops and starts
Like a corkscrew to my heart
Ever since we’ve been apart.

Eu juro, juro mesmo, que foi ele quem disse.

Só acordei a tempo de vê-lo partindo, sem dar tchau.

“Ô, Tanaca…!”

Por um motivo que desconheço, não costumo lembrar muito de quem já morreu. De um jeito ou de outro, acho que acabo me acostumando a sua (não) presença.

Apesar disso, tenho sonhado bastante com meu avô. Falado com muito carinho nele. Sentido falta das piadinhas sem-graça, de quando ele trocava meu nome, de quando me chamava pra pertinho dele e, encontrando um bolso em minha roupa, preenchia logo com uma nota de dez reais. Sinto falta do dias em que São Paulo jogava contra Corinthians e ele infernizava a vida da minha mãe, corintiana. Sinto falta dele chamando-a de senzala por ela ser a única pessoa na família toda que se aproximava do que se pode chamar de negro. Sinto falta de tanta coisa, de repente! De Páscoas, Natais, Reveillons, e todos os outros feriados em que ele fazia questão da família toda junta em volta da mesa – que tinha que ser sempre farta, sempre cheia de tudo que se possa imaginar – mesmo sabendo que não poderia comer (já que sua saúde não lhe permitia). Sinto falta dele falando com minha irmã: “Tanaca, venha cá, Tanaca” – e desprezando toda e qualquer correção – “É Tainá, vô! Tainá”… “Ô, Tanaca…”

Acho que, pensando bem, eu sei por que eu costumo não pensar muito em quem já se foi. Eu não lembrava o quanto doía sentir saudade de alguém e não poder simplesmente telefonar pra ele dizendo “Eu te amo”, ou pegar o carro e ir até ele pra dar um abraço e, encostando a cabeça nos ombros dele, sorrir e me sentir acolhida, como se tudo fosse pra sempre.

Eu não fui ao enterro do meu avô. Tinha onze anos e meus pais me julgavam ainda pequena demais para isso. Eu não sei como ele estava vestido, se estava com uma feição de paz no rosto. Não sei quem estava lá, nem sei onde é que ‘lá’ podia ser. De certo modo, pra mim, naquele tempo, era um alívio sabê-lo morto. “Ele não vai sofrer mais, não é, mãe?”. Era muito bom pensar que ele não estaria mais em casa, sofrendo com os erros de alguns de seus filhos, ou com a falta de cumplicidade de sua mulher. Era maravilhoso saber que ele não estaria mais lá na UTI, ao lado de outras pessoas tão mal quanto ele – ou piores – pessoas morrendo, pessoas chorando… Me agradava a idéia de que ele não sofreria mais. Mas eu nunca pensei que minha vida mudaria tanto depois que ele morresse.

Eu não tenho mais vontade de compartilhar minha vida com minha família paterna. Não sinto nada que eu não possa chamar de raiva pela minha avó. Não consigo perdoar tantas coisas que poderiam ter sido evitadas e que só contribuíram para criar ao meu avô a possibilidade de ter morrido infeliz – ele, que sempre quis o bem de todos. Não consigo evitar pensar que ele morreu de desgosto – e que foi tudo culpa da minha avó e de minhas tias.

Faz cerca de 7 anos que ele se foi. E eu ainda me pego, por vezes, como agora – se chão, chorando, sem controle. Apenas por sentir falta dele. Como ninguém nunca conseguiu me fazer sentir. E é por ele que eu vibro e me estresso a cada jogo do São Paulo. É por ele que evito ao máximo estar lá, na casa da minha avó, como se nada tivesse acontecido.

Não sei… é por ele que agora eu soluço, escondida no meu quarto. Porque sei que ele está, certamente, melhor do que estava aqui. Mas também sei que a falta dele torna meus dias vazios, querendo ou não.