Sobre verbos, conjugações e vulnerabilidades

(ou: Viajando na aula da Nanami.)

[Constatação inútil: Não sei por que raios faço letras e jornalismo se mal sei lidar com verbos essenciais.]

– O meu problema maior tem nome. Primeira pessoa do singular.
[Para os mais lentos: Eu]

[con]viver: Detestável conjugá-lo no presente do indicativo. Quase nunca vem acompanhado do advérbio harmoniosamente. Exige muito da paciência e da tolerância. O pior? Sou obrigada a fazê-lo todos os dias.

Aplicação nada prática: Eu [con]vivo.

amar: Usá-lo uma única vez parece ter me tornado incapaz de utilizar esquecer. É egoísta, grudento, não vai embora. Parece que tem mais valor que qualquer outro.

Aplicações comuns: Eu o amei, eu o amo, eu o amarei.

Eis algumas experiências gramaticais que não recomendo a quem puder evitar :).

~ Toda vez que pensei em usar a locução estou apaixonada, acabei usando muito mais a fui rejeitada. É cruel, mas é verdade.

~ O verbo desprezar faz parte da minha vida.

Aplicação prática: Ele me despreza, eu desprezo a todos.

Nem preciso falar sobre como anda meu humor.

Reminiscências


Click: Meu atual veneno antimonotonia, minha rosinha de Hiroshima e membro favorito do clã da geração pós-tudo

Há dias em que as coisas simplesmente resolvem (re)passar pelas nossas cabeças.
Involuntariamente. Sem querer.
Como se você revisse de repente uma cena do passado num movimento, num objeto, numa pessoa ou numa paisagem qualquer.
Aquela linha tênue entre reminiscências e lembranças.
Reminiscências são assustadoras.

(Odeio dias assim. Eu tenho medo.)
Eu enxergo as coisas, e como tenho lidado com elas.
Acho que o passado ainda mexe muito comigo.
Não pareço ter a mínima idéia de presente.
Não nutro expectativas. Quanto ao futuro…

Eu tenho muito medo.

Esse friozinho, essa janela de frente para as árvores
(as árvores e suas folhas secas, balançadas pelo vento…)

A Faculdade de Educação me dá uma sensação estranha em dias assim.

Déja vús intermináveis.
Minha infância. Minha adolescência. Minha juventude.
Um pedaço em cada cantinho desses prédios.

O dia está assustadoramente melancólico hoje.

(Com direito à viajadas no gramado, LA cereja menthol, Poetic Tragedy ligado bem baixinho no repeat e algumas lágrimas borrando o rosto com o preto do delineador de olhos…)

Never been kissed

Ou De como descobri ser BV aos 18 anos

Pra começo de conversa, esse post foi pensado já há algum tempo, numa manhã de ressaca pós-balada, após mais uma das minhas enormes decepções afetivas. A verdade é que só tentarei pô-la em prática agora. Só pra deixar bem claro… Não! Eu não sou do tipo de menina frustrada que nunca ficou com garoto nenhum e usa o blog como amante virtual. Se o título criou essa expectativa em você, minhas mais sinceras apologias – volte outra hora, talvez outro post meu, sobre outro aspecto da minha vidinha sem sal, lhe agrade mais. Ah… Não! Eu também não sou o tipo que já pegou todo mundo e não tem do que se queixar. Pelo contrário, eu até diria que sou uma garota normal, mas prefiro não arriscar – ultimamente todas as garotas que conheço (normais ou não) têm muuuuito mais experiência prática no ramo sentimental.

Por alguma razão que céus e terra não me contaram ainda, eu não me sinto bem quando fico com alguém. Parece que não era aquilo que eu esperava, aquilo que eu queria, parece que… ugh! Parece que eu sinto desprezo, desafeto. Parece que eu sinto nojo! Prontofalei! Eu sinto nojo quando beijo. Quer dizer, eu só senti nojo até hoje. Nunca fui beijada de verdade. Beijo romântico, com sentimento, com afeto, com vontade de ambas as partes, com algo que fosse mais que um desejo carnal. Nunca fui para ninguém mais que um número. Isso me incomoda bastante. É o que me faz não gostar de baladas ou esquemas de amigas. Eu não suporto saber que não há sentimento naquilo. Só me faz sentir culpada. Só me faz sentir arrependida. Sim, eu sou uma romântica – daquelas beeeeeem antiquadas que vira e mexe se pegam pensando na vinda de um príncipe encantado, com direito a cavalo branco, castelo, e até o “happily ever after” que os contos de Fadas da Disney me mostravam constantemente quando criança.

Já fiquei com dois ou três garotos, e, de fato, nenhuma das vezes foi por que eu realmente quisesse. Meu primeiro beijo, aos 15 anos, foi roubado. O garoto, conheci na internet (eu sei, é trash!), e, coincidentemente, era amigo de uma super galera da minha escola. Um dia, apareceu lá, depois de muitos flirtings por telefone e MSN e alguns bolos que eu fiz questão de dar – eu nunca fui de confiar nessas coisas de internet! – e a coisa aconteceu. Até começamos a ‘pseudo-namorar’, daí ele resolveu me trair com um amigo dele – e não avisou ao amigo pra não publicar as fotos. Resultado: eu, que já não estava tendo o relacionamento mais feliz da minha vida, descobri pelo fotolog que meu namorado me traiu com um homem! Trauma suficiente pra eu não ter ficado com ninguém por mais dois anos. Até porque, eu estava muito feliz e contente antes disso. Ser BV, pra mim, nunca foi nenhum pesadelo. Ok, ok.

Mas também já tive meus acessos de carência. Foi num desses que, em 2007, aconteceu a minha segunda decepção – que não entendo até hoje por que fiz o favor de ir encontrar sabendo ter ele “FURADA” escrito na testa. Ele não era de São Paulo. Já nos conhecíamos há uns 2 anos – 2 longos anos em que o garoto insistia de maneira até irritante em ficar comigo. Já tinha tentado beijar, já tinha feito declaração de amor, já tinha jurado nunca mais olhar na minha cara, já tinha me feito brigar com pretendentes… Acho que se eu estendesse um pouco mais o desejo dele, ele apareceria na porta de casa atirando em mim e em meus pais. (Sério, ok?) Então, num belo dia de inverno de 2007, lá pelas 7 e meia da manhã (sim, as coisas na minha vida são sempre bizarras desse jeito) ele me liga falando que está na galeria do rock e precisa me ver. Juro, perguntei a umas mil pessoas se deveria ir ou não. No fim, um casal de amigos resolveu me arrastar pra lá, a despeito da aula que perderia no cursinho. Segundas nunca foram um dia muito atrativo no cursinho. Pois bem, lá estávamos nós. A urgência dele não era assim tão urgente, suponho, porque ele me enrolou durante três horas falando sobre assuntos que nem eu acredito. De repente, olhou pra mim e disse: Quando é que vamos nos beijar? Eu sei, isso foi ruim, mas a minha resposta foi bem pior (dá pra ser pior!!!!): Eu estou aqui… Nem preciso dizer que ele me beijou, não é mesmo? Foram umas duas horas de chamego, então. Ele voltou pra cidadezinha dele, manteve contato, disse que queria namorar, me ligava, mandava mensagens, nos víamos e, de repente, apareceu (apareceu não – eu encontrei!!!) com outra namorada. Outra sim, porque eu – até onde havíamos combinado – era uma. Eu só fico me perguntando aonde estaria todo aquele amor doentio que ele ostentava na hora de ameaçar suicídio ou ligar para outras pessoas pra acabar com a minha reputação.

Nunca mais cedi à minha carência. Pelo menos até hoje, não. O terceiro garoto foi algo que não gosto nem de lembrar. Meu aniversário, como comemorar? Balada com as amigas! O combinado era irmos para o Inferno – é bem mais a minha cara! – mas exatamente no dia acontecia também a primeira balada da Faculdade no ano. Nenhuma delas queria perder – o que me levou a ceder. Fomos à tal baladinha que só tinha rostos conhecidos (pra mim, certamente, isso não é tão bom quanto parece). O amigo dele chega na minha amiga. Ele chega em mim e começa com umas cantadas bizarras do tipo “Adoro shortinhos” e “Você parece a minha mãe”. O amigo dele beija a minha amiga. Momento clímax: Que tal a gente fazer o mesmo? É claro que eu respondi que não. Se eu já sou chata pra ficar com alguém que conheço há anos, que dirá com um cara nada atraente, que eu não conheço e que passa cantadas bizarras como a dele? Mas o chato não ligou pra minha resposta. Me agarrou, na frente de um monte de conhecidos – inclusive do garoto por quem eu estava nutrindo um, digamos, interesse secundário – queimando o meu filme e acabando com todas as minhas expectativas. Não adiantou empurrar nem morder – ele agarrava de novo. Já que começou, termina – era o que me dizia. Mas eu não havia começado nada.

Talvez (e isso se encaixa só nas duas primeiras situações) algo de mim quisesse, sim, beijar. Senão não teria acontecido. Mas a verdade é que, para me arrepender tanto já no dia seguinte, essa vontade era algo diminuto perto da de me preservar. Agora você me pergunta: Se preservar de quê? É, eis um mistério que eu pago pra ver alguém resolver (eu mesma já desisti de tal proeza faz teeeeeeeeempo…).

Reflexões autobiográficas

(Ou apenas reflexões – o fato é que não fazem sentido algum)

Se você tivesse de escrever uma biografia sua hoje, como iria chamá-la?. Foi assim. Numa estocada, numa paulada só. Entre as prateleiras escondidas no fundo da biblioteca, ríamos de contentamento a cada obra que nos despertava interesse, confabulávamos sobre as já lidas, discutíamos as pretensas leituras do ano, lamentávamos não poder morar ali ou levar para casa tudo que nos desse vontade. Aí eu vi uma biografia qualquer e ri do nome que esta recebera. A Tory, depois do nosso acesso de riso, quebrando o silêncio dos olhares que passeavam pelas obras, lançou essa pergunta. E eu fiquei completamente sem resposta.

Se eu escrevesse uma autobiografia, como iria chamá-la? Curioso. “Eu só escrevo sobre mim, – respondi ainda meio atordoada com a pergunta, sem saber o porquê de ela ter mexido tanto comigo – mas quando me vejo frente a um pedido de ‘fale sobre você’, travo completamente. Não sei, não sei que nome daria”. Sorrimos uma para a outra, demos com os ombros e voltamos à nossa viagem. Em pouco tempo estávamos sentadas no chão, cada uma frente a uma prateleira, maravilhadas e soltando apenas interjeições de admiração ou espanto e declamando poesias de vez em quando, como se a pergunta nunca tivesse existido.

O tempo livre acabou, trocamos nosso chão e nossas viagens literárias por uma jornada até a Antropologia. Infelizmente, não por opção. Estudamos, fotografamos, bebemos, comemos, tropeçamos, caminhamos… Foi só quando eu já estava em casa, cabeça deitada no travesseiro, olhos fixos no teto, que a pergunta resolveu vir me assombrar. Não sei, algo estranho passou pela minha cabeça. Sensação de culpa, talvez. Ou incompreensão. Como é possível não saber uma palavra que me resuma? Como diria o Faustão, “a vida passou como um filme na minha frente”.

Lembrei da infância toda. Dos pesadelos. Do desejo incompreensível de usar óculos. Da paixão por Sérgio Mallandro e por japoneses. Dos verões no morro do Querosene, em Caraguatatuba. Das festas de aniversário – super festas de aniversário – que minha mãe e minha tia preparavam pra mim todo ano. Do Fábio e do Fernando. De como li, sozinha, a primeira palavra de tantas mais que encontraria em minha vida, dentro do carro, aos quatro anos. Da vontade de ter uma irmã. Das brincadeiras nem sempre inocentes com as primas. Da tão esperada gravidez da minha mãe quando eu cheguei aos cinco anos. Das crises de enxaqueca que nasceram junto com ela. Da entrada no colégio, da professora Lucilene, da choradeira por não querer assistir aulas na sala avançada só porque a professora era muito brava. Lembrei do dia em que ganhei um cachorro, do dia em que fui ao Beto Carrero, das vezes em que visitei os Parques da Mônica, da Xuxa, do Gugu… Lembrei da minha biblioteca, com todos os livros da Série Vagalume. De como eu os lia rápido e com vontade, de como sempre queria mais. Mal percebi, já lembrava dos meus nove anos, das minhas tardes sozinha em casa, das poesias e diários que escrevi. Onde estariam todos os poemas e diários que escrevi? Fui parar na adolescência. No meu primeiro amor (até então, no meu único amor). Lembrei das mudanças – de casa, de colégio. Do dia em que, com 11 anos de idade, sentada na primeira fila da sala 201 – a 7ª série A do Colégio Cruzeiro do Sul – eu vi o Caio como homem pela primeira vez. De como minha vida passou a ser em virtude dele, das nossas brigas, idas e vindas. Da primeira vez que tingi o cabelo – Cereja, da Koleston – e de como eu e ele havíamos combinado de pintar igual. Lembrei das desilusões, das ofensas, de como ele me fez perder o amor próprio. De como a minha suposta melhor amiga começou a namorá-lo um ano depois, mesmo falando mal dele para mim todos os dias. Lembrei da formatura da oitava série, da viagem a Brotas, do meu primeiro piercing, dos cabelos cor-de-rosa. Lembrei que fui uma adolescente feliz, apesar dos pesares. Lembrei de quão rápido as mudanças se deram em mim. De como troquei os livros e a inteligência pela internet, pelo photoshop. De como virei uma popzinha de fotolog e de repente tinha todos em volta me bajulando e amando. Lembrei dos festivais de teatro, das indicações à Melhor Atriz Revelação e Melhor Atriz Coadjuvante. Lembrei do meu aniversário de quinze anos, do namorico de igreja que fez com que eu descobrisse as pessoas ao meu redor e tomasse atitudes até então impensadas, do dia em que conheci Campos do Jordão. Lembrei do meu primeiro beijo – de que tanto fugi, e que tanto guardei, em vão, para o Caio. Das aulas de guitarra. Do dia em que ganhei a Neguinha. Da minha primeira apresentação. De todas as apresentações que vieram depois. De como é bom subir num palco, cantar e tocar. (E de como faz tempo que não subo num palco…). Lembrei do terceiro colégio, dos trabalhos coletivos, do último passeio em equipe, da apresentação final, da despedida, de como fui oradora da classe. Lembrei do vestibular, da bomba, da cirurgia, de como de repente eu me vi obrigada a crescer de uma vez. Lembrei da barra que foi o ano de cursinho. De como conheci amigos verdadeiros que carrego até hoje. De como nunca pensei que pudesse aprender tanto em tão pouco tempo. De como voltei à Ariane centrada, inteligente, estudiosa. De como descobri ser capaz de realizar todos os meus sonhos só com esforço e determinação. De como descobri a importância dos meus pais. De como percebi ser diferente dos demais. Lembrei da entrada na juventude. Da primeira balada, exatamente no dia do aniversário de 18 anos. Da luta que foi entender que havia idealizado demais as faculdades. De como foi triste descobrir que nem sempre aquilo que reluz é ouro. Lembrei da sensação de perdida que tive desde o primeiro dia. E de como, até hoje, não sei que atitude tomar naquele meio, naquele lugar. Lembrei das horas no farol da Paulista. Das tardes solitárias no Starbucks. Do dia em que alguém se matou na linha do trem e eu acabei conhecendo o Francisco. De como minha vida mudou quando conheci outras quatro pessoas como eu num lugar em que achava que nunca iria falar com ninguém. Lembrei dos medos de hoje. De que ainda há muito por fazer, sem que eu saiba ao certo como fazê-lo. De como, depois de tanto tempo e tantas mudanças, eu ainda amo o Caio. De como uma caminhada na Avenida Paulista, tão cheia de gente, pode fazer me sentir mais solitária do que passar a tarde sozinha embaixo da coberta com filme e pipoca. De como é difícil pensar no que virei a ser. Lembrei que o tempo não volta e o futuro não me pertence…

Então eu entendi. Eu sou plural. Vivi muito, em tão pouco tempo. Para alguns, aquilo que vivi foi ínfimo. Outros, certamente, nunca viveram nada igual. Entendi? Não, não entendi não. Nunca entendo nada. Eu apenas vi, naquele momento, tantas coisas que estão sempre em minha frente e não sou capaz de ver. Até porque, ao que me consta, ainda tenho muito para viver, para ser, para descobrir, querer, sentir, conhecer.

(Não sei que nome terá minha biografia, se um dia existir. Tem que ter um quê de insano, sem se permitir chamar de anormal. Tem que mostrar que houve garra, sem parecer pretensioso. Tem que provar que houve vontade, desejo, que houve ambição e muitos sonhos. Que tudo foi sempre muito intenso, mesmo que na maioria das vezes tenha sido completamente platônico. Tem que mostrar a constante inconstância que me rodeia. Tem que carregar até doçura, sem ignorar nem um pinguinho de toda a minha rabugice. Nem sei se existe palavra ou expressão que una tudo isso. Talvez tenha que ser inovador também. Ou inocente… Não consigo imaginar um título – mas não abandono a idéia de que escolhê-lo será mais difícil que contar toda a minha história.)

Sentido único

Eu odeio ter de iniciar um novo blog sempre que consigo começar a me dar bem com um. Com o último foi assim. Assim mesmo. Demorou, e quando eu já estava amando, resolveu dar piti. Resultado: abandonei. Agora, depois de inúmeras tentativas de resolver o probleminha, migro aqui pro WP. Sinceramente, só espero que dure dessa vez. Espero mesmo. Se não durar, também, não ligo. A vida é mesmo cheia dessas efemérides, e eu sou  a pessoa mais inconstante que já conheci. Não posso evitar: eu mudo o tempo todo, e, sempre que há necessidade de mudar. Por que não? Vamos lá, agora, dar um tapinha nesse blog pra que ele fique com a minha cara o mais rápido possível, antes que eu pense em desanimar…

Desculpem a bagunça, obras e mudança são assim, sempre conturbadas.