(Mais uma) Carta nunca entregue

Domingo, 13 de abril de 2008. 4h21 AM

Escrevo como quem está completa, mesmo sabendo que um pedaço meu acaba de partir. Escrevo com a consciência leve, por saber que amadureci. Pouco, mas amadureci. E me superei, superei a nós dois.

Toda vez que nos (re)encontramos é a mesma coisa. As mesmas trocas fugidias de olhares, os mesmos desvios, as mesmas tentativas de estarmos perto um do outro sem que ambos se notem. É sempre assim: você fugindo de mim, como se eu mordesse, e olhando para mim, como se me quisesse. Sempre. Nunca vi alguém procurar tanto outra pessoa como você faz comigo. É claro – você diria agora – que se eu sei que você me procura é porque estou te observando também, certo? Na verdade sim. Essa é a grande diferença entre nós dois – eu nunca tive medo de assumir que lhe amo e que só sei pensar em você; você, pelo contrário, nega até a morte algo que seus olhos, atitudes e vontades dizem: você me corresponde, mas nunca quis (ou pôde, não sei o que se passa aí dentro de você!) assumir. Preferiu correr o risco de me perder – embora eu, pessoalmente, ache isso impossível.

Já que é pra ser sincera, vamos lá: quantos anos mesmo têm que estou aqui, acorrentada no mesmo lugar, sem conseguir assumir compromisso nenhum com outra pessoa, só porque eu só penso em você? Há quanto tempo brincamos de gato e rato e invertemos os papéis aleatoriamente, chamando atenção um para o outro, causando ciúme, iludindo, machucando? Eu não sou mestra na área de exatas – pelo contrário, o engenheiro aqui é você – mas fazendo um dos meus cálculos-aproximados-com-base-em-estudos-da-5ª-série, cheguei à conclusão de que são 6 anos. É só fazer a conta aí: Começou em março de 2002; eu tinha meus 11 aninhos. Estamos em abril de 2008, fase áurea dos meus 18. E sempre foi assim. Nós sempre fugimos um do outro ao invés de contornar a situação. Agimos como se fôssemos ex-namorados que tiveram um final trágico, quando fomos apenas bons amigos que se apaixonaram e acabaram se afastando.

Eu sei, sou piegas demais. Não me lembro de você ter me dito nunca algo sobre não gostar disso. Se bem me lembro, ouvia minhas histórias com atenção, e não reclamava de nada, só de não estarmos falando de você. É. Eu era a menina isolada lá da primeira fila, até o dia em que um garotinho do cabelo cor-de-tomate resolveu passar a se sentar comigo. Nós só brigávamos. Em uma semana, estávamos melhores amigos. Até pra ir ao banheiro, precisávamos estar juntos. Um esperava o outro na porta, caso houvesse atrasos. Tingimos o cabelo de cor-de-cereja no mesmo dia. A escola toda falava que parecíamos irmãos. Naquele tempo, duas crianças de sétima série jamais estariam namorando… Naquele tempo. Enfim, nos apaixonamos, era evidente. Você brigava com qualquer um que tentasse fazer trabalhos comigo. Que se sentasse ao meu lado. Eu lhe enchia de carinhos, mimava, ajudava, fazia o possível para ver feliz. Você me ligava pra pedir perdão quando acontecia alguma coisa. Mentira: mandava um amigo ligar, porque tinha vergonha de falar comigo nessas horas. Eu ainda lembro a primeira vez em que você me ligou pra pedir desculpas. Eram cinco ou seis da tarde. Eu ouvia Wherever You Will Go, do The Calling. Achava que era a nossa música. O telefone tocou e eu não quis atender. Minha irmãzinha – então com 5 anos – entregou-me o telefone e disse seu nome. Eu só acreditei quando ouvi sua voz. Foi mágico, eu juro. Até hoje, toda vez que a escuto, eu me lembro. (Se eu parar pra contar todas as histórias que vivemos, escrevo livros, uma coleção deles. Não quero: são momentos meus, recordações minhas. Por mais que tenham me feito sofrer, faço questão de guardar.) Mas você sempre foi o descolado. Se apaixonar pela gordinha nerd não pegava bem. Simples: tratava-a de um jeito diferente na frente de seus amigos. Eles jamais iriam saber que era você quem gostava dela, e não o contrário. Funcionou durante um ano. Eu, a tal gordinha nerd, saí profundamente ferida. Você, o descolado, saiu sem mim. Acho que foi a última vez que nos falamos direito, na final de um campeonato de futebol da nossa classe, dezembro de 2002. Acabou em tapa na cara e um silêncio nada afetuoso.

Quantas coisas aconteceram depois e eu prefiro não lembrar! Quantas vezes depois disso não nos tratamos como desconhecidos, mesmo conhecendo um ao outro mais intimamente que qualquer outra pessoa no universo… Nós sempre fugimos. Eu sempre esperei você. Você continuou se preocupando com a opinião alheia. Eu nunca me importei com o fato de viver sofrendo por você. Sofri por ter guardado tanto o meu primeiro beijo a sua espera, e, no fim, não o lhe ter dado. Sofri porque as duas únicas vezes em que fiquei com alguém foram, ironicamente (ou não – a vida tem dessas coisas), no dia do seu aniversário – em 2005 e em 2007. Nas duas vezes, eu beijei pensando em você. Não senti prazer, senti culpa. Eu só me lembro de você me ligando aleatoriamente no celular pra perguntar quem era – ainda não entendo isso até hoje! – e das nossas conversas randômicas no MSN. Vira e mexe você aparece, enche a minha cabeça com ilusões e meu coração com esperanças, e cai fora logo em seguida. Que prazer há nisso?

Hoje não, hoje eu não agüentei. Eu não tinha a mínima idéia de que iria a esse evento até ontem à tarde. E ok, eu só comecei a cogitar a idéia da sua presença já hoje, quando pronta. Engraçado… Quando você chegou, eu achei que ia ser como todas as outras vezes. Olhar-nos-íamos de longe, nos evitaríamos, eu iria embora e fim. Mas não queria me sentir covarde mais uma vez. Fiz aquilo que parecia a coisa mais simples do mundo – parecia não, era a coisa mais simples! – mas que para nós dois era impossível. Três cutucõezinhos em suas costas. Seu olhar. Oi. Quando você ficou extremamente vermelho e abriu um sorriso de orelha a orelha, tudo em volta perdeu a importância pra mim. “Oi!”. Me deixei abraçar. Os dois sem jeito. Despedi-me e fui embora. Feliz.

O resto da noite se resume aos costumeiros diálogos de rabo-de-olho, às enormes trombadas ‘inocentes’, às buscas incessantes pelo outro na pista de dança. Não sou só eu quem ainda te ama. Você ainda sente a mesma coisa por mim. Suas mãos suadas me disseram que sim, suas bochechas vermelhas confirmaram. Por que diabos agora você também não amadurece e toma uma atitude de homem? Por que não se assume?

Escrevo como quem chora (e eu choro). Como quem deita todas as noites sentindo um profundo vazio por não ter você ao lado. Como quem não vê outra saída senão escrever, esperando que, algum dia, você possa ler essa carta – mesmo sem saber que já foi aquele a quem a quis endereçar. Escrevo como quem ri. Ri por saber que não guarda um amor não correspondido. Quer saber, quer mesmo saber? Escrevo como quem ama. Imensuravelmente, desesperadamente, irracionalmente. Como se amar fosse mais importante que qualquer outra coisa. Como se sem você, não pudesse existir o eu. Mesmo sabendo que eu já existia antes de te conhecer. Eu não me reconheço sem você em mim. Escrevo como quem ama. Quem ama espera a hora certa de cada coisa acontecer. E sabe que só será fe

liz quando acontecer. Se, e somente se, vier a acontecer.

Eu te amo.

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